O Mecanismo

Todos os dias no caminho para o trabalho, passo por uma determinada rua. E nessa rua há uma determinada casa. E essa determinada casa difere das outras, de uma maneira pra lá de incomum. Sua porta e janelas são velhas e estão sempre trancadas. Sua cor já foi perdida na aparência desgastada, seu quintal está repleto de mato, seu telhado está quebrado, sua afiação foi rompida e ela não possui muros. Não há sinal de vida no lugar. O único objeto familiar a meu ver está desenhado na parede: uma bandeira do Brasil grafada a giz, feita no puro cimento.

Quando passo por ela, sinto uma catinga forte, inconfundível. Uma podridão insuportável, além do barulho infernal das moscas que rondam algum canto incerto da casa. Não sei dizer se elas estão em cima, ao lado, nos fundos ou dentro da residência. Tudo que sei é que posso ouvi-las — uma eternidade em segundos.

Todos os dias eu me pergunto como a vizinhança não estranha tal situação. Perguntou-me como ninguém busca saber o que causa o mau cheiro na casa, ou o motivo da nuvem moscas. Qual seria a razão de permanecerem tão inertes, tão indiferentes, num ambiente completamente desconfortável? Não conheço a verdadeira causa, se houver uma.

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Paciente 76

“Não! Não, não e não! As grades na janela não podem me enganar, não mais! Por isso te escrevo… com cautela escrevo. Eles esqueceram a lata de picles aqui, será nela que minha carta viajará! Tenho um novo plano para vê-la amor, leia-me, por favor! Logo lançarei essa carta ao mar. Não me preocupo mais com o que eles resmungam… As coisas que os guardas falam não valem a paciência dos ouvidos. Você está ai em cima cintilante e solitária, eu sei disso, mas não nessa parte do céu, pois não consigo te ver. Além de me enclausurarem aqui, eles me esconderam de você.

Se eu já tentei pular? Claro que sim! Mas a cama é muito baixa, as pedras na parede me machucam, não consigo alcançar a janela. Quem sabe no quarto ao lado? Hum… Será que dá? Será que conseguirei te ver pela janela de lá? Ou seria melhor esperar o amanhecer? Sim! Quiçá se eu arrancar a orelha do doutor… será que eles me carregariam para um lugar com alcance do seu brilho? As vozes falam nos meus ouvidos, contam-me sobre uma cela mais alta no último andar, donde posso vê-la de perto, inclusive, toca-la. Mais do que nunca, preciso alcança-la querida, sinto muito a sua falta. Sem você é tudo tão triste e escuro. As noites pesam como os séculos dos ossos nas catacumbas, perco meus anos num emaranhado total de escuridão e sofrimento.

Eles costumam me dar algumas pílulas pela manhã, todas as manhãs. Tolos! Cuspo cada uma delas, amor. As brancas, as laranjas e principalmente as azuis! Mas acho que sinto o gosto amargo da azul diluído no meu suco de laranja… Não há lâmpadas aqui, por três vezes ao dia, vejo apenas as luzes do corredor. Quando o guarda coloca o café, o almoço e o jantar. Não conheço ele, deve ser novo. Parece-me frio. Sinto o cheiro do corpo dele no meu prato, as vozes gargalham, não me falam a verdade sobre o que ele faz com a comida. Quando o doutor aparece, ele ignora minhas perguntas, não quer me falar de você, não quer entender que preciso busca-la. Que desde aquele fadado dia, estás presas ai em cima.

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Mio caro Graciosa

pos5

Estrategicamente, observava. Completamente mudo, como se as próximas atitudes determinassem o futuro da minha vida… Mania feia de levar tudo muito a sério, não é? Até concordo, porém você, garota, é meu grande dilema. E só pra variar (e concordar) a palavra “dilema” rima com o seu nome. Só que por hoje, Eu não estou nem ai! A vida era minha e nela Eu determino o que bem quiser. Ou pelo menos, foi assim que me enganaram e ensinaram a acreditar, então logo silencio a mente e volto a observar…

Céus! Como você é linda! E, acima de tudo, Eu a quero ao meu lado: Seja na praia mergulhando nas ondas do mar, quanto no campo, sob as sombras de uma boa e velha árvore. Quero de mãos dadas, trocando olhares e com toda aquela dormência nos lábios dos tantos bons beijos divididos. Seria pedir demais por um bom “single” do Phill Collins ao fundo? Ou, melhor ainda, seria ouvi-la dizer o quanto está apaixonada… Do quanto desejara a eternidade de um breve momento. Ah! Ajudaria também se Deus permitisse um radiante por do sol, com toda aquela vibração que nos relembra o quanto é bom estarmos vivos, apesar de a própria vida insistir na falácia niilista da completa falta de sentido em tudo.

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