Na minha cozinha

Mergulho o anelar direito no bolo de chocolate,

Eu não sei: acho que estou sorrindo.

Mas não é qualquer sorriso — distinção que aprendi a fazer.

É o sorriso perfeito. Aquele feito pra você.

Ouço o sino da catedral. A hora é exata e a fala é muda.

As folhas vagueiam lá fora; no tempo, no vento, nas memórias.

Aponto o dedo, você chupa. Transpira. Fecha os olhos. Lambe.

Quente, salaz, tentador, inolvidável, lúbrico, Ual… apetecível!

Trovejou em mim; intrínseco.

Vai chover lá fora; inelutável.

Eu não sei: acho que estou feliz.

Mas não é qualquer felicidade — distinção que aprendi a fazer.

É tê-la de cerne na vida. Coisa que outrora, optei por esquecer.

A letra depois do Z

Ei!

Eu li sua última carta e ainda me surpreende o modo como me conheces tão bem;
Você é dissimulado, porém eu vejo o homem por trás desse olhar vazio. As dores, os conflitos, os problemas, as brigas, as quedas e os traumas da vida, te forçaram a modelar camadas e mais camadas de personalidades que escondem seu verdadeiro Eu“. Ual! isso foi profundo. Provavelmente a coisa mais franca que já li sobre mim mesmo. Eu não sei quantas vezes lhe pedi para darmos um basta nisso; nessa espécie melancólica de amor, onde a gente não transa, mas também não sai da cama. Eu não tenho você e você não tem a mim. E só gastamos o nosso tempo as escondidas um com o outro porque no fundo sabemos que somos feitos um para o outro. Embora seja tão difícil confessar isso sem trazer, junto as palavras, uma avalanche inteira de sentimentos ora arbitrários, ora essenciais. Um problema que, se não existisse, nos tornaria livres para mergulhar naquilo que a literatura chama de felicidade.

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Mancebo

Eu juro que perderei alguns dias buscando entender como a calcinha dela foi parar no ventilador de teto. Ou como minha bermuda jeans terminou rasgada. Ou como chegamos até a minha cama se eu perdi as chaves fazendo uma dancinha ridícula na chuva. Bem, ainda não consigo processar as melhores partes. Acordei sem uma parcela da minha memória, mas com um belo sorriso no rosto. No universo masculino, isso já diz tudo. Preciso ajustar a coluna, porém ela está cochilando sobre a minha barriga. Aprecio com todo carinho do mundo; jamais acordaria um anjo desses. Permaneço como estou por horas, assisto o clarear do dia transpassar a janela, estalo o pescoço, coço os olhos. Tem uma marca de batom no meu calcanhar, meu peito está arranhado e meu bafo cheira a hidratante de pele. Estou confuso, estou feliz. Uma lástima, um paraíso.

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Dois amores

Da última vez que encontrei Yasmin, ela estava ilhada na calçada de uma das ruas do centro. A chuva tomou conta de tudo, a enxurrada cobriu todas as saídas. Ela parecia um pinguim; baixinha, com seus olhos puxados, pele branquinha e bochechas vermelhas. Uma japonesa raiz! Usava uma capa de chuva azul e estava praguejando e reclamando sem cessar. Eu parei meu carro ao lado e ofereci carona. Ela não me reconheceu, titubeou a princípio, mas quando abaixei o vidro e sorri, seu semblante mudou. Yasmin saltou o córrego formado no meio-fio e abriu a porta traseira do carro. Olhei-a pelo retrovisor interno, percebi sua cara de alívio, como se eu fosse um verdadeiro salvador da pátria, um herói, ou o melhor profissional do corpo de bombeiros.

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About passion

Você não se apaixona por uma pessoa, se apaixona por um perfil. Por uma personalidade que, se remodelada, leva sua paixão para o caixão. Segundo o dicionário, uma das definições da palavra perfil é “descrição em traços rápidos: retrato moral de uma pessoa”. Logo, você se apaixona por um retrato moral e não pelo indivíduo em si.

Sustento essa hipótese há alguns anos e o que não me faltam são argumentos para defende-la. O maior deles está no fator arrependimento. Basicamente é o seguinte: todos somos seres mutáveis e enfrentamos diversas transições com o passar dos anos. Na medida que em que a nossa individualidade se altera, novos atributos são somados a nossa personalidade, outros são subtraídos e alguns são modificados. Afinal as mudanças fazem parte da vida. Dentre esses atributos subtraídos, ou seja, descartados, estão os arrependimentos e desgostos das escolhas passadas. Por exemplo: Quem nunca se arrependeu de um relacionamento na adolescência? Quem normalmente se arrepende, possui uma boa justificativa para tal. A maioria diz que se arrepende porque era inexperiente, limitado ou inocente… Ou que não sabia exatamente o que era “o verdadeiro amor” (como se o amor verdadeiro exigisse uma infinitude de experiências fracassadas para funcionar). Os arrependimentos são remorsos adicionados diariamente ao nosso baú do passado. Novas esperanças e estratégias assumem as lacunas deixadas por esses remorsos. Esse processo de troca é semelhante a mudança de pele das serpentes – o que fica pra trás é o nosso modo anterior de ser/agir, totalmente defasado e obsoleto. O que segue adiante é um perfil blindado, com um pouco mais de sabedoria, pronto para novos desafios, evitando a repetição dos mesmos erros.

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Heterocromia

Adilson sempre teve um fascínio enorme pelo olhar feminino. Se uma garota de olhos claros passasse pela gente, ele logo ficava encantado. Sua mente silenciava, a realidade parecia rodar em câmera lenta como nos filmes. Era horrível quando estávamos juntos e acontecia isso, pois eu era obrigado a repetir tudo que estava dizendo assim que sua cabeça voltasse do mundo da lua. Como usávamos o metrô para ir e voltar do trabalho, era comum vê-lo chegar no departamento falando de alguma guria cotidiana de olhar oceano ou esmeralda. “Estou xonadão, brother!”, dizia, repetia… Enchia o saco. Quando ele vinha assim, com um sorriso abobalhado na cara, tanto eu quanto o restante da equipe já sabíamos do que se tratava. Era uma paixão diferente todas as vezes. Diferente, claro, se ignorarmos o elemento comum entre todas as moças.

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Triunfo

Oi, boa noite.

Sei que você reparou no vazio do meu olhar quando me viu passando. Um amigo em comum contou sua opinião horas depois. Segundo ele, você disse que foi tudo muito rápido, mas que deu pra notar uma certa indiferença e distração em mim. Perdoe-me pelo que vou dizer, mas suas observações foram muito superficiais, querida. Ao contrário do que presumira a verdade é que, naquela tarde, o “vazio” do meu olhar não tinha nada a ver com a velocidade do seu ônibus, ou da música que tocava no meu fone de ouvido. Eu não estava distraído, pelo contrário: eu também te vi. Não foi um olhar estranho, foi o olhar sincero, quiçá o mais sincero de toda minha vida. Pela primeira vez em tantos meses, pude observa-la sem me envergonhar. Reparei o tamanho real do seu cabelo e das suas unhas, a exata textura da sua pele, a cor dos seus olhos, seu tom de maquiagem e as variantes do seu sorriso. Céus! Pela primeira vez não rolou um aperto no peito, minha garganta não ficou seca, as pernas não bambearam, minha transpiração estava dentro do normal. Não! Não tem a ver com indiferença meu bem, o que você viu é o que sou. Ou melhor: quem sempre deveria ter sido. O contraste entre o antes e o agora é que antes eu estava completamente apaixonado por você. Só que aprendi a te esquecer e gostei quando consegui. E… Acredite! Conseguir não acenar pra você dá rua foi por si só, um ato de felicidade.

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Imodéstia

No latim a palavra vanitas, significa tanto vaidade quanto vazio. Ou seja, quando vivemos pela vaidade, vivemos pelo vazio. A vaidade tem cheiro, tem cor e múltiplos nomes. Está no agir, no pensar, no falar, no criar, no desenvolver. E, como escreveu certa vez o frânces Stendhai, a maior parte dos homens do mundo, por vaidade, por desconfiança, por medo da infelicidade, só se entregam ao amor de uma mulher após a intimidade. Ao meu ver, Stendhai estava certo. Esse talvez seja o motivo pelo qual algumas mulheres acreditam firmemente que podem despertar o amor de um homem apenas com suas habilidades sexuais. Existe um pouco de verdade nisso, existe um pouco de mentira. Para realizarmos a distinção, precisamos compreender dois pontos. Primeiro: “a maior parte dos homens”, não significa todos os homens. E cá entre nós a maior parte dos homens são realmente idiotas, verdade seja dita. Não por cultura, religião ou grau de conhecimento, a idiotice masculina transcende esses detalhes técnicos, ela é quase… quase um padrão genético. Poucos são os homens que ultrapassam esse padrão ou nascem sem ele. Essa minoria corresponde a parcela masculina que fica ofendida não só com as palavras de Stendhai, como também com todos os demais insultos genéricos existentes no mundo. Segundo: quando cito “algumas mulheres”, obviamente descrevo um grupo que não representa a maioria feminina, muito menos sua totalidade.  Simboliza somente uma minoria que se especializa na arte de assegurar a fidelidade masculina através das frações de orgasmos.

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Previsivelmente imprevisível

Depois que largamos o expediente e trancamos a empresa, caminhamos até a esquina da rua e sentamos na mesa de um bar. Era o único bar em três quarteirões, nosso point certo de todas as sextas-feiras. Não ficamos dentro do bar, pegamos uma mesa na calçada. Era a trupe de sempre: eu, Joana, Alexandre, Eduardo, Renato e Erica. Ao sentar o Eduardo (ou Dudu, para os íntimos) quase quebrou a cadeira. “Calma ai cacete! Mal chegamos e tu já quer tirar dinheiro da minha carteira?”, disse Alexandre, nosso patrão. Todos gargalhamos e, em seguida, a Joana pegou o menu. Era uma tarde ensolarada, horário de verão. Estava um pouco abafado, mas corria vento entre as folhas das árvores mais altas. Um pagode dos anos 90 tocava ao fundo, abafava as sirenes presentes em algum lugar ali perto. O Flamengo iria jogar dentro de algumas horas, na mesa ao lado alguém falava mal da Dilma. Num período entre trinta a quarenta segundos após nos ajeitarmos ali, todos juntos começaram a mexer no celular. Uma espécie de hábito ou ritual inconsciente. Joana largou o cardápio, Renato pegou, mas jogou na mesa em seguida. Alexandre abriu o aplicativo da câmera, cutucou Joana (ou Jô, para os íntimos). Eles tiraram uma foto. O celular de Eduardo tocou em seguida, “Ih fudeu! Minha mulher, pessoal. Ela não pode saber que tô aqui. Calma ai, povão; Já volto”, disse. Em seguida se levantou e se afastou do bar, ele gesticulava bastante enquanto falava ao telefone. Eu estava sentado na ponta da mesa, Alexandre na ponta oposta. Erica estava a minha esquerda, Renato a direita. Dudu a direita de Renato e Joana a esquerda de Erica. Eu também cai no vezo de me envolver no celular, estava olhando o Facebook até Erica colocar a mão direita no meu braço. Ela tem uma pegada leve, poderia ser massagista e ganhar muito dinheiro nisso, entretanto se formou em administração e passava o dia organizando documentos do arquivo. Vivemos numa era onde as pessoas são felizes exercendo aquilo que gostam e não aquilo que são geneticamente propensos a fazer. Seria o tipo de atitude passível de banimento nas tribos pré-históricas, talvez. Atualmente é algo bonito de se ver, demonstra liberdade. Todavia no caso dela, em especial, eu realmente acho que ninguém com a mente sã gostaria de trabalhar em meio ao stress dos arquivos. Reparei nos seus dedos, notei que ela estava sem a costumeira aliança. Foi uma sacada rápida, logo subi o olhar e ficamos encarando um ao outro. Ela só queria me passar o cardápio, porém seu corpo estava falando ao meu corpo que aquele ato significava alguma coisa subentendida. Era isso ou, quem sabe, só fui abalado pelo seu dom natural.

Anda! Escolhe ai, Marcus – Ela disse me passando o menu. Peguei a folha plastificada, dei uma leve lobrigada e respondi.

Acho que deveríamos pedir uma porção de gurjão. Aquele maldito molho é delicioso! – Disse olhando para a imagem das iscas de frango.

Porra! Eu te passei pra escolher algo para bebermos. Você só pensa em comer, Marcus. E comer só frango, infelizmente… – Respondeu Erica.

Todo mundo riu e o garçom chegou. Alexandre não deixou ninguém falar, assumiu o lance. Ninguém teve a ousadia de sair pedindo, até porque ele insistiu o dia inteiro que iria pagar a conta. Quem paga a conta exerce também um direito de superioridade moral não esclarecido sobre todos os demais elementos da mesa. Qualquer um que bebe sabe bem disso, um axioma esclarecido. Ninguém assume em português claro porque é desnecessário.

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2049

Na primeira vez que a encontrei não pude ver seu rosto. Uma bolha de sabão entrou nos meus olhos no exato momento em que eles se preparavam para capta-la. As crianças fazem bolhas de sabão na praça, é gostoso… as bolhas combinam com o clima ensolarado e com as músicas matinais de domingo. Ao recuperar a visão, assisti quando as amigas a levantaram e jogaram no chafariz. Ela parecia não se importar… O vestido branco deixava escapar a cor de sua calcinha, porém ela não estava nem ai! Chegara a carta de aprovação na universidade. Não era preciso ser muito esperto pra perceber que aquela notícia entraria no hall de conquistas da sua vida, não era preciso ser muito esperto pra perceber que eu já estava apaixonado. Vi seu lindo sorriso, combinava com as bochechas rosadas. Jamais me esqueceria daquele rosto, daquelas sardas, ou daquele cabelo molhado. Graças a bolha, minha vista estava vermelha e pulsava. Mas não tanto quanto meu coração.

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Últimas palavras

Olá, meu neto. Saudades de você.

Perdoe-me pela demora em responder sua carta. Meu câncer alcançou um estágio avançado e com o decorrer do tratamento, ando tendo pouco tempo de sobra para os demais cuidados da vida. Pois bem, fico feliz que tenhas chegado aos 18 anos com muita saúde e inteligência. Gostei do que falaras sobre a relação que tive com sua falecida avó e de imediato, já quero responde-lo: sim! Éramos um casal feliz e apaixonado. Vivemos muito bem no decorrer dos 46 anos de união. Não éramos perfeitos, não gostamos muito um do outro de primeira, mas aprendemos a superar esses detalhes. Li também que ainda não superara muito bem a questão da sua ex-namorada e de como a nova vizinha andou balançando seu peito. Ah, meu filho… as coisas não são tão simples quanto parecem. Fez bem em me pedir alguns conselhos, há muito do que precisas aprender.

Pra começar, eu senti o ar de maturidade que você aplicou entre as letras, mas antes de tudo coloque uma coisa em mente: não se ache! Você ainda não é homem só porque possui um certificado de reservista no bolso. Muito menos pela entrevista de emprego marcada, ou pelas camisinhas usadas em baixo do colchão. Homens de verdade não dão pra trás nas situações difíceis. Eles aguentam, eles superam. Sempre com a cabeça erguida, sempre demonstrando coragem, mesmo quando se está completamente corroído por dentro.

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Love of sages

 

 

Ela está completamente descabelada! Porém nunca esteve tão feliz. Sentada na cama, tenta prender o tão complicado gancho do sutiã. Do outro lado do quarto, de pé e renovado, ele observa a garota que tanto ama, enquanto gira a colher com açúcar na xícara quente de chá;

Quer uma ajudinha ai cara? – Disse quando percebeu que ela falhara na terceira tentativa.

Não… E cale a boca! – Ela retruca em dois tempos. Ele gostou. Na verdade, o coração dele sempre bate mais forte quando é sovado por essas falsas reações de independência.

Tudo bem então, meu amor. Mas quero te pedir uma coisa. – Ele olhava fixamente para o rosto dela, através do reflexo da TV.

O quê? – Respondeu, mas ele não realizou o pedido. Segundos depois, tentou novamente: “O que você quer?”. E ganhou um sorriso mudo.

Ele então se aproximou da cama, sentou-se por trás dela e tratou de prender o tão abusado sutiã. Ela sentiu o cheiro do chá, sabia que ele detestava chás, todavia não ousou questionar.

Tome. Preparei para ti – Disse, oferecendo a xícara a ela.

Obrigada… Duas vezes! Já imaginava que seria pra mim. Mas… me diga! O que você quer?

É simples, não vá embora agora, amor. Passe o dia comigo.

Não posso, você sabe que tenho aula. Eu preciso estudar… – Mentira! A aula era o de menos, ela pretendia ser convencida de que valeria a pena ficar ali e, talvez, repetir toda a dose da noite anterior. Só que o rapaz era bom na arte do convencimento e tudo então, aconteceu;

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Lost in love

amar
amar o mar
a dor de amar
de amar você
por quê

por que te amar?
se tanto amar em nada dá
por que amar a dor de amar
de amar olhar o teu olhar
se teu olhar remete ao mar
o mar se torna meu olhar
eu amo o mar
o mar do meu
do teu olhar
eu amo amar
eu amo amar
eu amo amar você!
15.09.2015

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