Precariedades

Faz frio no Rio,

Faço sinal para o ônibus, entro e atravesso a roleta. Tento escolher um bom lugar, mas infelizmente não há muitos. Fico com o melhor local possível e nele me sento, bem ao lado de uma garota.

Eu não a conheço. No entanto, por alguma razão, ela guarda o celular na bolsa assim que me vê. A julgar pela gravata engraçada, pela blusa social, meião e saia curta, ela é uma estudante de licenciatura. Eu me ajeito no banco, o ônibus segue.

Dois minutos depois, algo começa. Algo latente. Uma vontade, uma indiscrição, um desejo. Da parte dela, claro, não da minha. Eu sigo transpirando a minha indiferença notória.
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O orgulho de ser um ninguém [+18]

Quando a música terminou de tocar, olhei ao redor e não vi mais nenhum dos rapazes que vieram comigo. Provavelmente já estavam bêbados demais para lembrarem de mim, ou se deram bem e estão beijando alguém em algum canto do terraço. Pela vidraça notei que, lá fora, o sol já estava pra nascer. As nuvens tomavam uma cor próxima ao púrpura e eu não via mais a lua. Então sai do meio da baderna e andei até a varanda. A música rolava ali também, com direito a balcão de drinks e pessoas se pegando na piscina. Piscina? Caralho, era muita vontade. Deveria estar fazendo pelo menos 2°; um frio de lascar. Aproximei-me do canto mais solitário que achei. Debrucei-me sobre o muro de vidro e acendi um cigarro. Dei um trago bem demorado e depois contemplei a cidade toda lá em baixo. Era prédio que não acabava mais. Por mil demônios, eu deveria estar no trigésimo andar a julgar pelo tamanho dos carros nas avenidas. Ou será que é só a bebida falando mais alto? Ah. Quem se importa? A noite paulistana é maravilhosa. De dia até pode ser depressivo, por vezes infernal. Mas a noite? Puta merda. A noite era a melhor do Brasil! E foda-se quem pensa diferente de mim, não acham que dói para um carioca assumir isso?

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Inexorável

Acordou e ligeiramente sentou na cama. De imediato ficou tonto. A cabeça começou a girar, era uma dor para cada fio de cabelo. Ele espirrou. Pôs a mão no rosto, havia um pouco de pó sobre a narina esquerda, traços da farra na noite anterior. Ele fedia e sentia uma dor absurda nas costas. Levantou-se, andou até o espelho, passou a mão no cabelo e, não satisfeito, penteou-o. Só Deus sabe o quanto era vaidoso. O sol quente levantava a poeira da quitinete alugada, o quarto cheirava a geladeira suja. Pela intensidade da luz, imaginou que já estava tarde. Assustou-se com isso e correu então até o relógio de parede. Eram 7:12 da manhã. Isso dava mais ou menos 7:20 da manhã, visto que seu relógio estava atrasado e não dava para ajustar, pois os botões estavam quebrados. Tinha um compromisso no centro as 8hrs e, levando em conta que o tempo médio até lá é de 30 minutos, contando com o trânsito, isso dava a ele, mais ou menos, 10 minutos para se resolver e desaparecer dali.

Voltou até o quarto desesperado. Uma agonia que corroía o coração. Todo trabalhador brasileiro sabe o que é estar atrasado, conhece a sensação. Ele também conhecia, embora fosse vagabundo. Ao menos, se considerava um, já que não arranjou um emprego fixo nos últimos treze meses. De imediato, havia muito a se fazer em pouco tempo: um remédio, um banho, uma cagada, um café, uns ovos, talvez, quem sabe, um cigarro… Elementos que qualquer cidadão precisa para encarar o demoníaco mundo lá fora. Ele tirou do armário um jeans manchado de caneta e uma blusa social lisa, preparou os ovos, engoliu o remédio junto ao café e correu para o banheiro. Quando já estava no box, o celular tocou. Saiu nu e voltou para o quarto com a escova de dentes na boca e uma toalha na cintura. Ao tirar o celular da cabeceira, deixou cair. Foram-se peças para todos os lados. Caralho! Aquilo fez um barulho enorme… O suficiente para assustar e acordar Vânia.
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A letra depois do Z

Ei!

Eu li sua última carta e ainda me surpreende o modo como me conheces tão bem;
Você é dissimulado, porém eu vejo o homem por trás desse olhar vazio. As dores, os conflitos, os problemas, as brigas, as quedas e os traumas da vida, te forçaram a modelar camadas e mais camadas de personalidades que escondem seu verdadeiro Eu“. Ual! isso foi profundo. Provavelmente a coisa mais franca que já li sobre mim mesmo. Eu não sei quantas vezes lhe pedi para darmos um basta nisso; nessa espécie melancólica de amor, onde a gente não transa, mas também não sai da cama. Eu não tenho você e você não tem a mim. E só gastamos o nosso tempo as escondidas um com o outro porque no fundo sabemos que somos feitos um para o outro. Embora seja tão difícil confessar isso sem trazer, junto as palavras, uma avalanche inteira de sentimentos ora arbitrários, ora essenciais. Um problema que, se não existisse, nos tornaria livres para mergulhar naquilo que a literatura chama de felicidade.

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La paix fragile

Joguei o cigarro no bueiro e observei a fumaça endurecer com o vento frio. Recoloquei minhas mãos congeladas no bolso da jaqueta e segui por seis metros até a entrada do bar. Entrei discretamente, puxei o celular e vi o relógio; era o horário e o local combinado. Procurei o lugar mais modesto dentre os disponíveis, porém todas as mesas estavam ocupadas. Então caminhei até o balcão e sentei num banco de madeira. Pedi ao barman um manhattan mexido. O cara era alto, forte, barbudo e careca, mas um tanto apático e tinha um semblante solerte. Ele piscou um dos olhos e seus lábios se esticaram num quase-sorriso. Se fosse apostar, diria que ele era russo. Gosto dos russos, entretanto não confio neles. Relaxei e esperei o pedido, a noite estava agradável.

É inverno e eu estou no Le Piano Vache, em Paris, na véspera de natal de 2018. O lugar é bonito, decorado, cheiroso e cheio; muito cheio. Uma banda de hippies canta músicas populares. Tento me acalmar, mas é complicado. A ansiosidade não me permite se adaptar ao ambiente. A bebida finalmente chega. Agradeço e dou um gole. O tempo passa, meu celular vibra e eu me toco que estou sem internet. Não pensei muito: hackeei o Wi-fi local e aguardei a mensagem do meu contato chegar. E, para minha surpresa, ela já havia enviado. A primeira faísca de internet trouxe a notificação atrasada: “Chego em três minutos, você saberá quem sou… estou usando um cachecol vermelho”. Sinto um calafrio que vai do dedão do pé até a nuca, era a ansiedade se tornando mais aguda. Eu esperava não ter outro dos meus ataques. Bebi mais um pouco. Aclamei a música que havia acabado de começar, um cara assoviou do meu lado, entrei no ritmo e gritei também: “muito foda! Muito foda! Hul!”. Quando a galera voltou a se entreter, repensei mais um bocado no que estava prestes a fazer ali, era bem possível que os eventos que ocorreriam dali por diante, fizessem parte da lista de erros que já cometi na minha vida. Na verdade, não seria surpresa se assim se concretizasse. Por fim, levei em conta a grana que estava em jogo e decidi seguir em frente: “Ok, estou no balcão. Magro, cabeludo e de jaqueta”, respondi a mensagem. Ela visualizou e eu aguardei.

Os minutos se passaram, a música estava acabando e ela ainda não havia chegado. Já não tinha estourado só os três minutos e sim quatro minutos e dezoito segundos. Contei cada milésimo, a crise de ansiedade me lambia, estava agoniado! Virei-me olhando para a porta, pessoas iam e vinham, mas nenhuma sombra dela, ou talvez “dele”? Não sei, não tinha a menor ideia. Parecia o enredo de um filme, desses conspiracionistas, envolvendo a CIA, o exército e tudo que há de questionável pelo mundo. O relógio marcou o quinto minuto. Comecei a cronometrar em pensamento: “Um, dois, três…”, “trinta e nove!” e, então, finalmente entra uma mulher pela porta. Baixinha, gordinha, loira, cachecol vermelho. Ela bateu as botas no tapete e deu uma olhada ao redor das mesas, procurando-me provavelmente. Em seguida, ela fitou o balcão, de uma ponta a outra, do primeiro ao último bêbado. Seus olhos azuis passam por mim e se vão, retornam a minha pessoa e se estabilizam. Suas pupilas dilatam, sinto que as minhas também. Ela se aproxima e senta no banquinho ao meu lado. Suas bochechas coradas, seu perfume doce, seu corte de cabelo que esconde cicatrizes no pescoço. Perco-me nos detalhes… “Cerveja, por favor”, pediu. O russo consentiu e foi buscar para ela. Eu precisava me concentrar… Tarde demais. Ela me notou. “Vire-se para e olhe para frente -, disfarce! Finja que não nos conhecemos!”, ordenou-me. Eu obedeci suas ordens. Fingi estar admirando as garrafas que decorativas do fundo do bar. A música parou e as pessoas começaram a bater palmas. Nós começamos a conversar discretamente em meio a baderna, evitando toda e qualquer troca de olhares.

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Frívolo

Inspiro, prendo o ar por cinco segundos… Expiro, abro os olhos e encaro a escuridão. O estômago ronca, a cabeça volta a latejar. “Frustração” é o que provavelmente está escrito na minha testa, no meu espírito. Sentado no chão do quarto, olho para o canto esquerdo e vejo meu copo de café. Ponho o dedo dentro dele. Está frio, está nojento. Uma formiga caminha desesperadamente pela borda e me encara como um invasor; a serpente do seu paraíso. Seria maldade se eu limpasse o copo. Então não limpei. Olho para o canto direito e vejo o brilho da lua cheia na quina da janela. A ventania tropical derruba minhas anotações no chão. Deveria junta-las e organiza-las, mas todas não passam de lixos pseudo-literários. Então não junto.

Há tempos tento compreender quem sou, na medida em que classifico as coisas que sinto, gosto e presencio. As orações tem colaborado, Lispector e Victor Frankl também. A noite é uma criança e eu ainda tenho vinho. As vozes vêm e vão, a fé é uma incógnita. As vezes ela funciona, as vezes desisto e banco o cético. Reclamo, desligo o celular. Cheiro minhas axilas, “merda!” reprovo. Toco nos meus cachos; estão sujos. Preciso de um banho, preciso de meias limpas, preciso lavar o carro e pôr os legumes na geladeira. Tento me levantar, quero me levantar, mas acabo deitando no chão. Algo está fora dos eixos, não sei bem o quê. Ainda sou jovem, ainda tenho músculos e cabelo preto. Ainda tenho um bom fôlego e um pênis funcional. Entretanto não consigo fazer nada, criar nada, ao mesmo tempo em que sinto poder fazer tudo. A preguiça é um gigante gordo nos meus ombros, comendo frango frito e lançando os ossos nos confins da minha mente. Ele arrota ouvindo minhas expectativas e gargalha das minhas esperanças. Sinto-me o Trumam¹ brasileiro no seu circo virtual. Contas pra pagar, momentos inúteis, piadas sem graça… Tudo não passa de uma verdadeira comédia. Engasgo saliva, murmuro, espirro. Como amar a vida quando se conhece o seu custo? Eu ainda não sei.

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Dois amores

Da última vez que encontrei Yasmin, ela estava ilhada na calçada de uma das ruas do centro. A chuva tomou conta de tudo, a enxurrada cobriu todas as saídas. Ela parecia um pinguim; baixinha, com seus olhos puxados, pele branquinha e bochechas vermelhas. Uma japonesa raiz! Usava uma capa de chuva azul e estava praguejando e reclamando sem cessar. Eu parei meu carro ao lado e ofereci carona. Ela não me reconheceu, titubeou a princípio, mas quando abaixei o vidro e sorri, seu semblante mudou. Yasmin saltou o córrego formado no meio-fio e abriu a porta traseira do carro. Olhei-a pelo retrovisor interno, percebi sua cara de alívio, como se eu fosse um verdadeiro salvador da pátria, um herói, ou o melhor profissional do corpo de bombeiros.

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A vida como ela é

Erick acordou as 6hrs, sentou, coçou a perna e caminhou até o banheiro para lavar o rosto. Enquanto dedilhava a face, achou uma espinha na testa. Tentou espreme-la, entretanto a situação piorou. “Merda! Logo hoje? Ninguém merece”. Sua reclamação tinha fundamento: Erick estava para apresentar, dentro de poucas horas, seu projeto final. O software que desenvolveu durante os últimos seis meses no curso de Ciências da Computação. Desceu até o primeiro andar da sua casa, sentou na mesa e tomou o café da manhã. Despediu-se da mãe, catou a mochila, o pen drive e saiu de casa em direção a faculdade. Precisava chegar lá até às 10hrs.

Erick tem 24 anos. É nascido e criado no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro. Como cidadão de classe média, teve sua vida dividida entre escolas públicas e privadas, mas sempre se destacou em todas que estudou. Venceu campeonatos de matemática locais e nacionais. Aos 13 anos, desenvolveu um simples maquinário capaz de armazenar cinco quilos de comida. O aparelho era controlável via bluetooth e, uma vez programado o horário, de tempos em tempos, liberava uma porção de ração para cães. A ideia era deixar a máquina do lado de fora das lojas de rações para que os cães de rua pudessem se alimentar. O negócio deu certo! Muita gente gostou da ideia e seu projeto foi aclamado. Seu arranjo inovador, ajudou-o a se formar no curso técnico de programação. Entrou na faculdade aos 18 anos. Mas já estudava e estagiava na área desde os 16. Trabalhou em cinco empresas, como estagiário, programador e web designer. Participou de grandes projetos. Mesmo sendo novo, tinha seu sobrenome no rodapé de alguns bons sites espalhados por aí. Era um rapaz de bom caráter e de um futuro promissor.

Michael acordou no mesmo horário, na comunidade do Jacaré, no Rio de Janeiro. Michael também tem 24 anos de idade e o ensino fundamental incompleto. Entrou na boca de fumo aos 12 anos, avançou no tráfico, ganhou status e hoje é um soldado temido. Michael é conhecido na comunidade como Catatau. Catatau possui um grande amigo, o ruivo. Ironicamente Catatau não é moreno e sim branco, do mesmo modo que seu amigo ruivo é indígena. Foi ruivo que acordou Catatau. Estava terminando seu turno e o amigo precisava substituí-lo. Catatau acordou, pegou o fuzil da mão do amigo, abriu a geladeira e virou o resto de uma garrafa de vodca num gole só. Despediu-se e seguiu para a laje donde vigiava a boca de fumo alguns metros à frente.

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Tira-teima – Parte #2

Leia a primeira parte do conto clicando aqui 🙂

Parte 2

Aquela afirmação ficou voando na minha cabeça sabe Deus lá por quanto tempo… “Eu sou o anjo da morte!”, senti um frio terrível na espinha, meus dedos nem doíam mais. Houve uma pequena queda de luz no momento em que ela se revelou, a situação ficou ainda mais esquisita. Acredito que exista um nível de assimilação da realidade no arsenal dos instintos humanos que evidencia uma verdade, de imediato, logo que ela chega ao cérebro. Nós tão somente aceitamos, o corpo não reage, não ousa elaborar questionamentos. Uma atributo real, mas quase indescritível, rola mais ou menos quando olhamos pra cara de um indivíduo, por exemplo, e percebemos o quão lídimo é o que ele anuncia, pois sua admissão parece sair do fundo da alma. Sem dúvidas, foi exatamente o que senti. As palavras doeram tanto quanto um soco no estômago – meu estômago cheio de álcool, rémedios e comida barata. Não me desesperei, porém também não agi com naturalidade, quem agiria? Sai de perto daquela coisa que usava calcinha. Andei até a janela, abri, encostei no muro da sacada e fiquei olhando a rua. O dia estava quente, um mormaço desgraçado. Era impossível! Não poderia estar delirando; a vida, monótona, chata e suja, como ela é, estava rodando de forma tranquila lá em baixo. As formigas subindo a parede, as gotas sujas do ar-condicionado do apartamento de cima, o boteco tocando Seu Jorge na esquina, os caras da companhia de luz agarrados nas afiações dos postes. Era real, com certeza. Precisava engolir aquela situação a seco e aceitar o fato da Morte estar sentada no meu sofá com sardas nos seios siliconados e pernas divinas, sem rastros de celulites. Não vou mentir, estava confuso… confuso e excitado. Tipo um hétero bêbado que acordara ao lado de um travesti. Pensei em me jogar da janela, cair de cabeça na calçada e acabar com tudo aquilo de uma vez, entretanto isso só facilitaria as coisas para ela. Ao me estabacar e rachar o crânio na calçada, eu iria encontra-la, quem sabe, mostrando sua verdadeira face e, mais ainda, com raiva por eu ter tomado essa decisão. Seria uma longa caminhada até a eternidade. Conclui que o pulo só pioraria as coisas.

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“She’s online”.

Ok! Eu sei que normalmente não se ama alguém de primeira, meus pais me ensinaram isso! A TV também… As músicas, os livros, os professores, enfim: cada pedaço da vida. Eu também sei que não se promete, nem se declara todo seu amor pra alguém que você nunca viu, nunca sentiu e muito menos teve ao lado. Pra alguém na qual os únicos registros presentes são as fotografias e áudios. Pra alguém que me tornou um expert na arte de interpretar o que há por trás de cada olhar e o que se esconde nos intervalos da voz, sim! Eu uso essa artimanha… Fazer o quê, né? Foi necessário… Só assim fui capaz de interpreta-la tão bem; observando o que todos os outros normalmente ignoram. E por falar dos “outros”, vocês querem saber de uma coisa? Eu sei muito bem como as relações devem funcionar, sou um cidadão moderno e bem disciplinado, todavia resolvi ignorar tudo isso, resolvi ignorar o script padrão de como viver uma juventude saudável e me entreguei a contramão geral dos relacionamentos, contra a guia cultural de nutrição de sentimentos. Não fiz isso para me destacar, ou para demonstrar o quão superiores somos de todos os demais, pelo contrário: vacilamos tanto como todos os outros. A diferença é que não nos entregamos a corações diferentes por noite, por esquina. Somos oposição porque não optamos pelas opções mais fáceis, escolhemos/queremos/desejamos/sonhamos e planejamos a opção mais difícil de todas! A união de dois mundos apartados pelo destino, de duas almas enraizadas em pontos distintos do planeta.

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Un destino arrastrándose

La Paz – Bolívia, 1975

 

Ainda me lembro daqueles olhos escarlates… eles brilhavam de tal forma que não dissipavam as trevas, pelo contrário: devoravam a escuridão da noite. Aos poucos ela avançou e sem razões aparentes, como num predestino, picou o meu pé. Muitos foram os que tentaram me ajudar, mas antes de reunir forças para resistir, sucumbi. Em algum lugar do mundo, com o rosto sendo lavado pelo rio.

Acordei com o som do próprio fôlego, sentei na cama e desliguei o rádio. Não é um bom sinal sonhar com serpentes, todo mundo sabe disso. Caminhei para lá e pra cá enquanto aguardava o borbulho da água… Tudo foi muito real, precisava fazer um café. Questionei se poderia haver alguma relação com meu encontro à noite. Sou supersticioso, fiquei nervoso, tive vontade de arremessar o espelho, cai na poltrona murmurando coisas de pouco sentido; “Ah, merda! Não era o dia de sonhar com isso, que tipo de aviso foi esse?”, questionei. “Droga! Droga! Hoje não pode, hoje é dia de encontra-la!”. Sem a menor dúvida, iria encontra-la hoje a noite. O desejo pela saudade vencia o respeito pelo sobrenatural.

Não adiantava ir atrás de informações… A “avó” dos búzios não está na cidade hoje e os livros do Jornal aqui ao lado não contribuirão em muita coisa. As revistas são tradicionais e os significados tradicionais dos sonhos costumam não funcionar comigo. Não sei se devo arriscar, não sei se posso ir até lá. Se o marido dela descobrir, se ele ao menos desconfiar, a serpente não levará apenas a minha vida e a dela, como também a de toda nossa família, até a vigésima geração. Ser dominado e levado ao prazer é maravilhoso, mas saber proporciona-lo na medida certa é um dom – um dom de poucos! E dentre todos os seus talentos, essa dádiva o ditador não possuía, nem mesmo se preocupava em ter. É natural que sua esposa buscasse fugir de toda aquela tensão então, nos braços de outro. Se eu não afagasse seu deleite, outro melhor o faria.

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Efêmera

Hoje eu tive aquele mesmo desejo de quando conversamos semanas atrás, ou melhor dizendo: o velho desejo que me acompanha desde a noite em que te conheci. Falo da vontade que dá de catar sua atenção, sempre que a saudade bate, ou sempre que a química entra novamente em sincronia.

As vezes penso em enviar uma boa música. Convenhamos e concordamos: não há nada melhor do que assuntos sustentados sobre uma bela composição. Noutras vezes penso em abordar o tema de um novo livro. Enredos e loucuras literárias são sempre bem-vindas, afinal de contas até mesmo a nossa amizade caberia nas páginas de uma.

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A maldição do Sr. Capital

Sentado no meu trono, saboreio todas as notícias com um olhar esperança ao próximo e ao mundo. Isso não esconde o fato de que lá no fundo, estou mentindo para mim mesmo. Se a existência for um teatro, eu sou o escravo que disfarça a omissão de suas verdadeiras ideias, dos verdadeiros sentimentos.

Aperto suas mãos, lhe presenteio com um sorriso. Digo-lhe palavras bonitas, dou-lhe memórias impactantes. O que não quer dizer que compartilhamos, essencialmente, a mesma felicidade, ou que deverás compartilharemos um dia. Na verdade o que faço, pouco significa. O que sou, talvez, realmente importe, enquanto o ato de “importar” quitar o preço de minha pessoa.

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Bullet Time

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Para alguns azarados a vida é uma sistemática violenta que independe das decisões pessoais para gerar catástrofes. Desde a infância, os problemas surgem automaticamente, sem pedir permissão. Como se fosse um dever pessoal considera-los naturais. E pra variar, por outro lado, as oportunidades de paz, esperança e harmonia precisam ser disputadas na unha, como se fossem uma dádiva, ou um conjunto de momentos e sentimentos nativos de outra espécie.

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Rendido e mal pago

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As vezes nos jogos das relações vividas, acontecem coisas engraçadas que aparentemente não possuem explicações lógicas. Ou que, pelo menos, ninguém se importou e não se importará em tentar explica-las. Costumo dizer que apenas solitários falam de amor. Porque quem de fato ama (com exceção de alguns casos especiais), pouco se importa em tentar demonstrar com palavras tudo aquilo que sente, geralmente eles preferem demonstrar de outras formas… Formas das quais, sou até obrigado a recomendar, hehe.

Só que hoje, quero falar de amor. E peço encarecidamente que meu status civil não pese na balança a partir de agora. Ainda mais porque tentarei passear sobre um tema que compõe parte desse enigma do qual muitas pessoas preferem não tentar explicar. Vamos lá:

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