Eu que amava

Toda sexta feira eu gosto de beber um pouco de vinho e tomar cerveja pra dar uma relaxada. Eu não faço nenhum tipo de marketing dos excessos ou dos vícios, e respondo por mim sobre meu controle, odeio fugir do eixo racional e não uso nada exterior a mim como válvula de escape. Eu saio, dou uma volta pela cidade com meu melhor amigo pra conhecer novas pessoas e contextos, e começo conversar sobre aleatoriedades da vida e papos “cabeça”, em contrapartida, qualquer nível de stress e apreensão é eliminado por esse diálogo eufórico. Eu faço assuntos difíceis e pesados se tornarem engraçados e simples sob efeito do álcool. De segunda a sexta eu sou movido a cafeína e outras paradas, mas sexta meus caros… Ah sexta, o dia de tomar umas pra relaxar e divertir um pouco… Continue lendo “Eu que amava”

notas caóticas

faltam apenas quatro meses para o fim do ano. notei o tempo passar como um pássaro que passa voando na minha frente enquanto espero o ônibus na calçada em frente à praça. o pássaro passa voando. o tempo passa voando
o tempo pássaro voando passa. bem na minha frente. o tempo. o pássaro. o pássaro-tempo passa.  eu já nem sei mais quem eu sou. você disse que ia, mas que voltaria. você disse, lembra? a ponte é a mesma, mas eu não. a ponte é a mesma, mas eu não.

Lição

Depois da embriaguez? Amargura,

Depois da euforia insana? lucidez,

Das noites terríveis a clareza,

Do fim de paixões vãs a tristeza.

É como o café amargo que alerta,

A a escuridão que precede,

Desperto do sono animal,

O fim de sua ilusão chegou!

Já dizia os poetas: Há mal que vem pra bem.

Hoje provo desse fel que acorda,

Dos acordes cíclicos de melancolia,

Que se põe em um sorriso torto,

Das dores que o disfarce esconde…

 

Seleção Natural

O meu avô caçava passarinhos e revendia de forma ilegal. Ganhou um bom dinheiro com isso, conquistou muitos bens com isso, construiu um legado com isso. Sou contra. Porra, sou completamente contra. Vê-los e ouvi-los de perto, cheios de graça, é até bonito, sabe? Mas vendê-los? Céus! Sou contra. E agora tem esse cara, esse vizinho, que todos os dias deixa a gaiola diante da minha janela, posso vê-lo em pleno ato daqui de cima, do meu segundo andar. Ele está lá, com seus cordões de prata e o dente de ouro. O cara ganha a vida revendendo os pássaros e se gaba por conseguir lucrar, no decorrer da semana, o que nós, meros mortais, ganhamos em dois meses. Ele sai de casa pela manhã, antes do sol, e caminha até o terreno baldio em frente ao meu portão. Por lá, deixa a gaiola pendurada na árvore e fica de longe vigiando. O passarinho canta, não tem escolha o coitado, apenas canta; canta sem parar. Alegra o meu dia e a alma da rua inteira. É bonito, não nego. É uma das coisas mais belas da natureza, do universo. Só é o tipo de beleza que não deveria coçar no bolso de ninguém, que não deveria despertar o tesão pelo comércio. Pelo menos eu penso assim. Pena que nem todos pensam como eu. Na infância imaginava como seria o mundo se todos pensassem como eu. Não existiria o estudo da química, as pessoas não beberiam chá-mate, o funk não seria popular, os bancos não dariam cheque especial, o Corinthians teria falido, ninguém teria inventado as calças sociais, nem os talheres de plástico, nem o Excel, nem os fones intra auriculares. E as ruivas? Cara, elas são verdadeiras deusas! Teriam sempre preferência em tudo, seriam as rainhas do planeta. Seria um mundo péssimo? É. Seria. Todavia garanto que pelo menos os passarinhos estariam livres, leves e soltos. Os funkeiros reclamariam, os pássaros não. Eles apenas cantariam, não têm escolha os coitados, cantariam sem parar.
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Estupefato

Poesia, velha arte do encanto
E se descer-me o teto escuro
Quem há de iluminar meu canto?

 

Se hoje sou poeta,

O sou pois já amei e tanto

Que as rimas indiscretas

Derramo no papel, de espanto

 

E o susto arrepiado dos meus versos

Faz o som mais predileto

Quando encontra os lábios teus

 

Ruas, coisas tortas de concreto

Onde passo em desconcerto

Procurando os passos, Deus!

 

Mas se acabar meu universo

E eu versar o avesso inverso

Desse verbo que era meu

 

Vivo! Em silabadas no meu peito

Embalando um som perfeito

Meu amor jamais morreu.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O orgulho de ser um ninguém [+18]

Quando a música terminou de tocar, olhei ao redor e não vi mais nenhum dos rapazes que vieram comigo. Provavelmente já estavam bêbados demais para lembrarem de mim, ou se deram bem e estão beijando alguém em algum canto do terraço. Pela vidraça notei que, lá fora, o sol já estava pra nascer. As nuvens tomavam uma cor próxima ao púrpura e eu não via mais a lua. Então sai do meio da baderna e andei até a varanda. A música rolava ali também, com direito a balcão de drinks e pessoas se pegando na piscina. Piscina? Caralho, era muita vontade. Deveria estar fazendo pelo menos 2°; um frio de lascar. Aproximei-me do canto mais solitário que achei. Debrucei-me sobre o muro de vidro e acendi um cigarro. Dei um trago bem demorado e depois contemplei a cidade toda lá em baixo. Era prédio que não acabava mais. Por mil demônios, eu deveria estar no trigésimo andar a julgar pelo tamanho dos carros nas avenidas. Ou será que é só a bebida falando mais alto? Ah. Quem se importa? A noite paulistana é maravilhosa. De dia até pode ser depressivo, por vezes infernal. Mas a noite? Puta merda. A noite era a melhor do Brasil! E foda-se quem pensa diferente de mim, não acham que dói para um carioca assumir isso?

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Nas Nuvens

Eu sou o puro oceano de mar próprio,

Que navego intenso por inteiro,

Viajo nessas águas azuis de mim mesmo,

Nesse navio voador sem marinheiro.

O céu beija o oceano, saudades da terra!

Quando retornarei a Marselha nesse brigue catalão?

Antes que venha o vento forte de um tufão.

E a cada noite perco-me enquanto procuro-me,

Acho-me distraído suspensos nos ares,

Por isso que exploro os mares da solidão.

 

 

 

Julho

É julho. Hoje o dia foi ensolarado. Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas em cima das lajes, mas me falta coragem. Observei por um longo tempo. Em julho, o céu fica repleto de pipas e as lajes repletas de crianças. É bonito ver.

Eu queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas. E sobre a tristeza daqueles que as perdem e as veem flutuar pelo ar, e parar em algum telhado. Eu realmente queria escrever sobre a felicidade dos meninos que soltam pipas.

Tem dias que não sou capaz de sentir absolutamente nada. Esse é um deles. Eu queria sentir a felicidade dos meninos que soltam pipas nos telhados aqui do bairro, mas é julho, e julho é triste. Exceto pelo fato de se ter crianças empinando pipas nos quintais.

Dias assim

É que ultimamente o tempo anda meio louco e a minha vida tem acompanhado tal loucura. Amanhece ensolarado, mas logo as nuvens escuras chegam. Eu deito na cama. Não quero ver ninguém. Falar com ninguém. Desanuviar  em dias assim não é fácil.

Eu faço o que quando já não sei o que fazer? Se alguém criasse uma fórmula de desaparecimento – corpo e alma – eu compraria. Hoje eu fiquei pensando em tudo o que eu não sou. Fiquei deprimida por não enxergar algo além do nada. Não sou e não tenho em mim todos os sonhos do mundo. Eu tô no fundo. O poço fundo me é abrigo. Abrigo também mata, saca?

Caminho meio perdida. Cambaleando. Não sei pra onde ir. Não sei como ir. Devo ir? O fundo do poço é meio que um imã na minha vida. Quando dou por mim é lá que já estou.

Que as nuvens carregadas por mim passem e não me levem. Desanuviar é palavra bonita. Você não acha? Desanuviar. Espero mesmo que por aqui tudo possa desanuviar.

Escrever e nada mais!

Certa vez um leitor me disse que estava decepcionado com os escritores atuais sobretudo porque, segundo ele, a maioria deles “perdem muito tempo escrevendo sobre si mesmos e não criam novas histórias, crônicas, poemas, contos e novelas de tirar o fôlego” (sic). Eu entendo a crítica dele e respeito a opinião mas, precisamente sobre ela, gostaria de fazer uma pequena observação;
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Prosopopeico

As vezes olho as paredes

E parecem falar comigo

Alguma coisa surda,
Breve, opaca, indissoluta
O no timbre insuportável dos seus versos
Venho ver meu universo,
entre dedos me escorrer
E a cada gota suja da memória
Essa dor é minha história
Não é fácil de esconder
Já inerte
entre as notas frias da parede
Meu chorar, a minha sede
E essa melodia morta
Digo:
sede fortes, homens, sede!
Quem tem dor tudo suporta.

Coração Oco

No princípio eu acreditava que o vazio era um mal que só alcançava os grandes pensadores, os mais cultos, os membros da alta classe e os maiores filósofos de um século. Dostoiévski sofreu com ele, Nietzsche explicou-o por demasiado, Schopenhauer e Hegel falaram até cansar. Mas tudo se tornou confuso após alguns anos quando eu — mesmo sendo tão pequeno, pobre e insignificante — fui abraçado por esta mesma tenebrosa sensação. Através dela, prossegui numa estrada esquisita, confusa e muito, muito solitária.

O vazio existencial é o último degrau de todos os conflitos pessoais. E digamos que seja um pouco complicado debater o niilismo na juventude, sobretudo porque a maioria esmagadora dos jovens estão enraizados demais com a vida. Alguns mergulham na carreira, outros nos estudos, outros perdidos em volúpia, outros na fé ou viajando de região para região. No fim, todo mundo vive pelo que é, ou pelo que tem (o famoso ser ou ter). E todos possuem algo da própria vida que os definem por completo, quase como sinônimos diretos de si mesmos, como relacionamentos, profissões, currículos estudantis, religiosos ou qualquer outra coisa semelhante. Eu, por outro lado, não sou assim. Há anos não sou assim. A tecnologia da informação não me define, muito menos meus anos dedicados a ela. Minha escrita não me define, embora já tenha feito tanto. Minhas canções, meus projetos, meus discursos, minhas leituras e argumentos são, no geral, atributos de um ente inclassificável que leva meu nome de batismo. E é este ente que busco entender diariamente, tendo sempre a sensação de que ele é modificado por completo todas as vezes em que estou próximo de um resultado, obrigando-me a recomeçar e recomeçar e a tocar o barco com o peso desses recomeços habituais.

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Das ervas que restam

É. Lá se vai o terceiro copo de chá.

Dizem que é o tipo de bebida que nos ajuda a refletir e… quer saber? Não importa a quantidade de xícaras. Acho que só o tempo realmente nos ajuda a pensar, pôr as coisas no lugar, recuperar o fôlego e voltar aos eixos. Eu vivi uma maravilhosa e confusa aventura que, em teoria, acabou. Fato delicado e cheio de pontas soltas. O problema é que quando se relembra um fato por inúmeras e inúmeras vezes, os elementos principais se tornam meros detalhes e os meros detalhes passam a protagonizar a porra toda. A vida é vista por um novo ângulo, o passado é narrado sob uma nova perspectiva e as regras são ditadas pelas coisas das quais não fiz questão. Faz sentido, agora, o porquê de você só ter me procurado quando estava mal, quando não tinha ninguém para conversar. Faz sentido, agora, o porquê de você desaparecer quando está feliz, quando as coisas estão bem, quando tudo passa a dar certo. Eu acho que minha amizade foi convertida num escritório virtual de psicologia, tornando-me útil apenas para abraçar o seu lado mais obscuro. Quando esse lado hiberna, não tenho lugar na sua vida. E sou, então, educadamente deixado de lado.
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