Lapsos

Terminei um novo poema. Alguém na vizinhança está ouvindo Maurício. Dói olhar para todos esses versos que a solidão expeliu, que a tristeza construiu e que o ódio consumiu de uma vez só. Dói pela frieza, pela certeza e pela beleza, de cada letra oriunda das lágrimas. Das madrugadas. Do pavor. Da dor. Do desespero. Da falta de dinheiro. Da música ruim. Da bebedeira e seus excrementos. Das falsas promessas. E dos demônios em cada esquina. Geralmente esquinas de caminhos que considerei serem os melhores.

Se eu acertei ou errei. Não me pergunto. Não me importo. Não me questiono. Apenas sigo trilhando e sigo bebendo e sigo reclamando e sigo culpando, sobretudo culpando o amor e sua incapacidade de encontrar meu lugar de repouso no mundo, no tempo/espaço. Todos os outros encontram; pequenos e grandes. Famosos e anônimos. Por que eu não? Sempre que o lodo da minha angustia escorre pelos meus dedos e mancha uma folha de papel, unindo-se nas linhas, nas tintas, feito adubo novo em solo seco, fazendo florescer a mais bela das poesias, então eu chuto o balde, atiro o rascunho na parede e abro a janela. Olho para o céu e xingo todas as suas estrelas arrogantes. Falo até cansar. Rezo até chorar. E volto pra cama sem entender. Sem nunca entender. Pois se sou capaz transformar em ouro o que há de mais monstruoso dentro de mim, que maravilhas poderia fazer se também fosse capaz de usar meu amor? Mas sou incapaz de usá-lo. Não consigo sentir sua energia. Ela se foi há muito tempo. Há quem tente me convencer que não encontrei o papel exato, a caneta exata. Que não esbarrei com a companhia certa. Mas enquanto todos falam, o amor continua trancafiado, sem lugar de repouso no mundo, no tempo/espaço.

O único conforto é saber que não estou sozinho. As estrelas arrogantes amaldiçoam e abençoam milhões e bilhões. Alguns poetas escrevem pelo romance. Outros porque precisam de ajuda. Há quem só desabafe. Há quem se sinta só. Há quem use para aliviar a tensão. Para conquistar. Para humilhar. Para querer, não querer. Ser, deixar de ser. E há aqueles que flutuam em meio a tudo isso, deslizando, serpenteando, se adaptando, nunca se encaixando. Escorregando das mãos daqueles que acham que compreendem. Tolos. Costumo enganá-los. Dou luz há uma bela história, uma crônica de fim de semana. Deixo-os encantados, sorridentes. Volto três léguas. Escondo-me dentro de mim mesmo. Observo a cela em que meu amor está. Ele é tímido, não me permite retratá-lo, mas guarda mais esperanças que eu. Confia mais nos outros do que eu. Quem sabe o problema esteja na sua existência e não no seu confinamento. É. Quem sabe. Bom, preciso de uma nova distração. Preciso afastar os curiosos. Alguém na vizinhança está ouvindo Maurício. Renato estava certo: a solidão até que me cai bem.

Nota: "Maurício" é a 8ª faixa do álbum "Quatro Estações" da Legião Urbana

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