Era Junho, dia dos namorados

Estava desconfiado pra variar, algo de ruim estava pairando no ar e eu precisava descobrir o que era. Os intuitivos têm certa habilidade estranha de persentir quando algo de novo está prestes a acontecer, mas na maioria das vezes não passa de fantasias cuja dona é: “Vozes na minha cabeça”. No fundo não é nada de paranormal ou espiritual, apenas o inconsciente fazendo todo o serviço de esmiuçar alguns detalhes sutis e de relapso fazer vir a tona uma série de hipóteses. Vocês pensam que Newton de graça e ao vivo sem querer concebeu a natureza da gravidade quando a maçã caiu em sua cabeça? NÃO, aquilo estava se remoendo a anos dentro da mente nada normal dele. É assim que funcionada a parada. 

Era junho, fazia muito calor as 01:00 da noite e eu suava feito um condenado, mais parecia uma galinha dentro de um forno.  A mais de uma semana não conseguia pregar o olho direito, se consegui dormir umas seis horas de sono em alguma dessas noites foi muito. No outro dia tomava um café amargo e “dropava” uma certa pílula e tava tudo feito, não ficava arrastado durante o dia feito um traste que virou a noite jogando Free Fire. Naquela madrugada levantei nu, abri a porta da cozinha e fui para o quintal tomar um banho gelado enquanto olhava o céu estrelado, estava um calor do cão e pra piorar sou um cara calorento. Fiquei ali por alguns minutos e voltei de pau duro pra meu quarto com pensamentos safados.

Na mesinha via uma pilha de papéis desorganizados, uns livros antigos, dois copos que bebi café e tinha esquecido de levar pra pia, um pote de minoxidil, óculos, notebook e um fone de ouvido que só funcionava de um lado. Uma pessoa com TOC teria uma crise de ansiedade se entrasse aqui.  Pego um desses papéis rasurados e vejo uma poesia triste inacabada que comecei mês passado. Tenho que parar com esse defeito de começar a escrever e não terminar. Quem escreve sabe que não dá pra contar com o acaso pois uma ideia digna de nota vem rápido e some mais rápido ainda, se você não terminar logo ou pelo menos esboçar rascunho é bem provável que dê um apagão literário, difícil é aquela inspiração vir de novo. E pra ser sincero meus textos não são lá essas coisas, tenho que aproveitar bem esses pequenos momentos, pois é foda ficar meses sem escrever algo decente. Um desses livros velhos na mesinha empoeirada é um de Nietzsche, só lembrei de uma de suas frases pesadas que virou lema de jovens revoltados e desentendidos com a existência em crise no começo da vida adulta, essa frase possui muitas interpretações, entenda como quiser, eu escolho vê-la de um jeito cômico, no fundo ele só estava brincando e chamando atenção, não passa de um auto retrato narrado. A frase diz: “Ninguém ama o amado, apenas o desejo que o objeto amado lhe proporciona”.

Meu celular toca quase duas horas da manhã. Quem seria? Provavelmente mais uma alma perdida sem sono. Eu odeio ligações, prefiro que me mandem áudios no Whatsapp. Como sou ruim em prestar atenção fico pedindo pra pessoa repetir feito um velho meio surdo que trabalhou a vida inteira em uma serralheria barulhenta. O zunido fino das maquinas em uma serralheria são substituídos pelo meu turbilhão de pensamentos múltiplos que me distraem. O número era desconhecido. Atendo.

— Bem, Roberto? Tá aí? Ei ei… 

A voz era de minha namorada, me ligava com a voz rouca do celular do irmão mais novo, a bateria do celular dela estava tão viciada que só pegava quando queria, parecia aquelas televisões de tubo, aquelas TVs das antigas que só liga na base da pancada.  Algo de certo estava errado, ela nunca me ligou depois das 23:00, a desgraçada dormia cedo e tinha um sono pesado, só acordava as 10:00 do outro dia. Os pais delas a criaram do jeito mais tradicional possível, parecia uma daquelas mocinhas americanas dos anos 50, pronta pra casar e cuidar bem dos filhos. Ela era uma das mulheres mais lindas que eu conhecia. Seu corpo me causava forte desejo, seus olhos eram chamativos e ousados como quem esconde segredos, sua pele amarronzada e sua voz era doce. A conheci através da uma colega em comum, a Sara. Em menos de uma semana a chamei pra sair, não perco tempo mesmo, fiquei sabendo que tinha mais de 6 caras que a queriam e não tomavam a iniciativa e ficavam apenas de indiretinha. No primeiro encontro ficamos conversando em uma cafeteria de um Shopping que tem aqui, consegui criar uma conexão e adentrar mais adiante após os portões da personalidade introvertida dela. Chegamos lá em um domingo as duas horas da tarde e só fomos sair oito da noite. Como não poderia namorar alguém assim? Ela me contava de suas andanças pelo Brasil com a família, morou alguns anos em Recife, outros 3 anos no Sul da Bahia, quando era pequena morou no Rio de Janeiro. Engraçado era seu sotaque que fazia uma síntese de todos esses lugares. O que me chamou mais atenção nela foi seu jeito cuidadoso e romântico. Duas semanas depois eu estava lá pra falar com o pai dela que eu ia namorar a filha dele.

— Oi Amor, te liguei hoje mais cedo e você não atendeu. Como vai você, Ruth? Você está bem? Saudade de tua voz na minha. Eu estava pensando em nós agora. Não fiquei insistindo ligando pois não gosto de causar a impressão de que sou o homem que fica em cima exigindo atenção a todo custo. Eu me importo profundamente contigo, não esquece. 

— Vou mais ou menos, a gente precisa conversar pessoalmente, tem umas coisas que quero te falar. Amor é uma palavra muito forte Roberto. Eu não estou me sentido muito bem ultimamente, o problema sou eu, eu sou um lixo, eu vivo mudando de opinião, pessoas assim não deve se envolver com ninguém. Meu irmão também ficou doente e eu estou cheio de coisas da igreja pra fazer. É muita coisa pra uma pessoa só.

— Ruth, você não está nada bem, mas vai ficar bem, vou aí em sua casa agora, chego em 20 minutos. Ou então amanhã eu dou um jeito da gente se ver. Eu só quero que você seja sincera comigo. E tem coisas que só se ajeitam no presencial.

— Eu gosto de você Roberto, gosto de como você é decidido com a vida, destemido, confiante e inteligente. Foi o que me chamou atenção em você e fez com que eu nem sonhasse em dar bola pra os outros caras. Mas somos muito diferentes um do outro. Eu não duvido do seu amor por mim. Eu senti muita certeza quando você veio aqui conhecer toda minha família. Eu quero muito você. 

— E porque você me fala todas essas coisas?

— Não sei, o problema sou eu, eu não sou a pessoa certa pra você. Eu lembrei aqui da primeira vez que a gente saiu, foi mais do que eu esperava, parecia que a gente se conhecia a anos, dois perdidos um do outro que finalmente se encontraram. Eu não esqueço de quando você apertou minha mão e a gente atravessou a rua correndo e em seguida você me beijou enquanto a neblina caia sobre nós. Amanhã nos veremos, melhor amanhã. Não sou uma ingrata, juro. Tchau. Não posso fazer muito barulho, todos dormem. 

— Amanhã te ligo. Fique bem. Confie em mim. Beijo, meu AMOR!

Meu coração dava umas pontadas do cão e minha garganta se tornava cada vez mais seca. Cada palavra dela eu respirava fundo como um réu sabendo de sua sentença. Minha voz ficava lentamente mais grossa pra disfarçar o nervosismo. Como assim amor é uma palavra forte? Ela que disse Eu Te Amo primeiro, não eu. E estávamos junto a quase um ano, tempo suficiente pra saber se a coisa ia pra frente ou não. Mas não posso tirar muitas conclusões, ela deve estar mal por algum motivo, a autodepreciação não é aleatória.

 

Ela morava do outro lado da cidade, de ônibus era quase uma hora, fora o tempo esperando no terminal de ônibus. Não tinha nada rodando essa hora da noite. Mas eu queria mesmo era ir de moto, pegaria a moto de meu pai e ia torcendo pra nenhuma blitz estar rodando, não tinha licença pra pilotar e a moto estava atrasada. Problemas soltos no ar me desconcerta, não fico tranquilo enquanto não resolvo. Antes de conhecer a Ruth eu sai de uma relação que mexeu com meu emocional da pior força possível, ainda não namorava a garota oficialmente mas já tínhamos algo fixo, fui trocado por um soldadozinho bruto, nada contra os soldados, mas aquele cara era um retardado QI 70. O engraçado é que ela depois voltou arrependida quando viu que o cara era mais burro que uma porta, totalmente desinteressante. Com o tempo essa figura de proteção não se sustenta, tem que ter algo a mais pra agradar uma mulher, a maioria dos militares são chifrudos. E caras assim só combinam com mulheres trouxas que gostam de serem mandadas, o mesmo tipo que tem fetiche por bandido. Ela jurou que não agiu errado pois não estávamos namorando, disse que não sabia da intensidade de meus sentimentos. A danada era esperta e queria chamar o plano B, ou melhor, o cara B pra suprir a carência. Eu não sou brinquedinho de ninguém, mas aquilo foi como levar um tiro de escopeta no peito. Me afastei completamente e não quis ser o amiguinho trouxa dela, mas confesso que minhas melhores poesias vieram daí, escritos baseados em puro sofrimento e desilusão…  Fui em alguns eventos e sai com mais de 10 mulheres depois disso, eu era um desiludido com o amor não um trouxa.

Um ano depois conheci a Ruth, resolvi sossegar da vida de solteiro. Com ela não tinha joguinhos, era sincera, e não fingia desinteresse pra gerar um apaixonamento. Ela fugia totalmente da média das garotas com quem eu tinha saído. Mas dessa vez eu estava ligado de como funcionava a mente feminina, sem fazer generalizações, eu sabia exatamente o que uma mulher queria e esperava. Me tornei um profissional nisso, li demais sobre o tema, minhas amigas me contavam exatamente tudo o que elas faziam e passei por um período de transformação. Quanto mais eu convivia com as mulheres mais eu ficava encantado de como elas eram fantásticas em dominar o homem no aspecto emocional. Eu sabia lidar, não me afetava. O homem que tinha levado um tiro de escopeta no peito levantou-se forte com a bala alojada na porra do peito. Eu ainda tinha coração. 

No dia seguinte a Ruth não me ligou. Dei tempo suficiente pra ela pensar bem no que queria. Ainda não era hora de pedir uma definição, restava ainda alguns momentos. Resolvi conversar com meus amigos. É encher a cara de cachaça ou procurar um irmão, fiquei com a segunda opção, ainda possuo irmãos nesse mundo torpe. 

 

— Miguel, a Ruth anda estranha, disse que não sabia mais o que estava sentindo. Que não tinha certeza de nada. Ela não responde minhas mensagens, parei de mandar. Eu não estou sofrendo, mas quero resolver isso. Eu gosto dela poh, ela não é qualquer uma. Não quero acabar feito um chorão sem antes saber o que se passa.

— Eu sabia que não ia dar certo poh, tava na cara desde o começo. Você é o inverso dela. No fim elas terminam e se sentem as fodonas, julgam ter você na palma da mão por você ter insistido mandando mensagem, alguém que não é merecedor dela e que está disposto a voltar assim que a bonitona estalar o dedo.  Evidentemente você não é um namorado padrão que se tem por aí. Se expectativas foram criadas por parte dela, uma a uma se dissiparam. Eu conheço esse filme, não adianta mandar mensagem. Termina primeiro que ela pra não dar esse gostinho. 

— Eu discordo. disse o Juan. 

— Fala Juan, pode dizer tudo, eu quero ouvir a verdade. Se ela nem sequer me responder mais? Seria a pior vergonha de minha vida, eu não mereço isso. 

— Se você realmente tomou as decisões corretas na relação ela vai retornar. Fique tranquilo, você não fez nada de errado e não é alguém desinteressante. É só uma crise que ela tá passando. Só aguarde. Ela vai te responder. É um tipo de teste que elas fazem em vez em quando. Ela não vai suportar seu silêncio e vai ceder primeiro. Você até agora não cometeu nenhum vacilo grave em nada pelo que nos contou. Fique firme e preste mais atenção no que você fala. Use tudo o que você aprendeu a seu favor. É difícil é, mas é possível vocês retornarem. Se não der certo você pode tirar algo bom disso. Você supera. 

 Me expus mesmo. Sim, é constrangedor, mas fazer o que? Eu precisava contar pra alguém, estava ficando muito estressado, não pensava em outra coisa. Eu era uma bomba relógio pronta a explodir, e o botão estava na mão dela. Naquele dia volto confuso pra minha casa, escrevo um pouco e fico remoendo ainda mais aquela sensação estranha em minha cabeça, não tenho concentração pra jogar xadrez, meu hiperfoco se chama Ruth. 

Na madrugada o celular notifica mensagens dela. Uma das possibilidades era não responder e bloqueá-la após visualizar aquele texto pra dar uma de bonzão, sumir do mapa depois por uns meses, dar uma de “macho alfa” não me quer tem quem queira.  Só que eu era diferente, vingancinha é coisa de garoto frustrado com o ego frágil, eu pouco estava me fodendo pra minha imagem. Abri as mensagens e respondi.

Ironicamente hoje é o dia dos namorados.  Ela dizia que estava preocupada comigo, pediu desculpa pela demora, disse… “Estou muito mal pelo que fiz contigo, chorei todos esses dias sem parar, você não merece sofrer assim, se quiser acabar comigo eu mereço exatamente isso porque não presto”. Inventou mil e uma desculpas que até parecia que o culpado era eu. Respiro fundo e segurei a emoção. A vontade mesmo era de agir feito otário pra ela ter noção com quem estava lidando. Perder a postura por conta de uma namorada? Não mesmo. Quando começo a ser otário até o diabo sente medo, não sei ao certo a medida da maldade. Apenas respondo: Me encontre as 15:00 na praça Oliveira Campos, tenho a plena e total certeza de que você vai arranjar uma desculpa pra não ir, encaro como o fim,”.

Paciência de Jó a que eu tinha. Não que eu era um covarde com medo de perder o que não era meu, longe de vender minha alma ao diabo pra ter minha mulher de volta. A questão central é que pra isso sou clássico, opto por resolver as coisas do velho modo, olho no olho pra não restar dúvidas. Odeio não saber do que sou culpado, é levar uma facada nas costas em uma festa de aniversário, nunca levei uma facada nas costas em algum aniversário, você já levou? Naquela noite contrariando as expectativas tive um sono de respeito, estava exausto, dormi feito uma criança que estudava a tarde. Acordei perto das 13:00 e me restava poucas horas pra ver qual é que era. Eu não tinha ensaiado nada e estava preparadíssimo pra o que viria. Tomo 4 xícaras de café preto sem uma gota de açúcar, estava ligado no 230, o perigo de andar em alta rotação é que é impossível frear, uma hora ou outra o motor entra em pane, mas meu coração aguentava, eu tinha feito minha escolha.  Me arrumo como quem não quer nada, respiro fundo e minhas pupilas dilatam, escolho uma camisa social vermelha e uma calça preta, minhas mãos suam e meu corpo treme, minha boca fica totalmente seca. No celular toca Legião Urbana: “Ainda é Cedo”. Eu passo em uma loja de conveniência e compro um perfume para a Ruth.

Olho no relógio, exatamente 14:55.  Sento em um banquinho e fico olhando para o nada. O vento sopra minha pele, os pássaros brincam no céu, os carros correm apressados. Vários casais passam felizes em minha frente de mãos dadas, pobres coitados enfeitiçados pelo veneno da paixão, e quem é que nunca foi? O relógio marca 15:30 e nada dela chegar. Minha mente levantava teorias de como tudo isso era uma grande piada enquanto meu coração batia como quem sofre. Meu jeito sarcástico disfarça qualquer coisa. Encontro uma colega da época de escola, seus olhos verdes fitam em mim, seu cabelo balança lentamente solto ao vento, ela usa um batom vermelho provocante que combina com seu vestido curto. A comprimento com um abraço forte e um beijo no rosto. Ela senta do meu lado naquele banco.

— Quanto tempo Daiane. Tudo bem? A gente só se fala pelo direct praticamente, milagre te encontrar aqui. Tá esperando alguém? 

— Tô não, tô só. As coisas vão indo bem. Eu tava comprando umas coisinhas aqui no centro. E aí conta como tá a vida. É pra quem esse perfume aí? 

— Eu vou bem, programando uma viagem de novo lá pra Chapada Diamantina mês que vem. Aquela vez que a gente viajou com a galera foi legal, vale a pena repetir. Esse perfume aqui é pra minha namorada, mas ela não vem, tá com ar de quem quer terminar. Ignorando mensagens, o clima tá ruim. Eu não faço questão não. O amor que é forçado não é amor. 

— Depois que virei enfermeira ficou difícil viajar por conta dos plantões, mas quero ir lá no final do ano. Poxa que pena, quando acontece isso geralmente é melhor terminar, faz bem pra os dois. Depois de um mês você esquece. Eu já passei por isso, é ruim viu. Você escreve bem pra caralho, desconta nos textos. 

—  Sabe Daiane, de 100 “Eu te Amo” apenas 5 ou 6 se salva e estou sendo otimista. A paixão é algo muito forte no começo, sentimento intenso que toma a gente, mas que por si só não sustenta relação alguma. Engraçado que a paixão faz a gente tomar decisões que não tomaria e postergar escolhas importantes. É preciso muito mais do que uma mera paixãozinha pra fazer valer a pena e o negócio seguir em frente. 

— Você tem razão, o teste de fogo é quando nossos defeitos começam a aparecer. Se a pessoa mesmo assim ficar após a paixão esfriar é porque aí já virou amor. Fora disso não vale a pena insistir. 

Do outro lado da rua ouço um grito com meu nome, era a Ruth me chamando. Ela veio!

—  Tchau Dai, tenho que ir. Depois conversamos. Me chama lá no Whatsapp depois. 

— Boa sorte. Fique calmo. Depois você me conta o que aconteceu. 

Por essa eu não esperava, não esperava mesmo. Ela usava uma blusa jeans, o cabelo trançado estava amarrado e seus olhos buscava os meus. Seu sorriso me encantava como as estrelas. Até parecia que estava tudo bem. Eu ainda a amava intensamente. Segurei em sua mão, reparei que estava no dedo com um anel que a dei. A beijei na boca como quem sente saudade. Caminhamos juntos pelo centro e ela me contou que tinha errado o endereço e estava me esperando em outro lugar. Dei o perfume que tinha comprado pra ela, ela aceitou meio sem jeito. Entramos em uma cafeteria, sentamos no canto longe dos demais para podermos conversar sem interrupções. Nem por um segundo deixei de olhar dentro de seus olhos, dizem que os olhos são os portões da alma, falam mais do que qualquer palavra. Ficamos conversando de alguns assuntos secundários, é preciso de todo um preparo antes, é sempre assim. Ficamos em silêncio por alguns segundos e finalmente era essa a hora. 

— Então Ruth, eu quero falar sobre nós. Quero dizer que não me arrependo de nada que construímos, gosto de você profundamente, quero seu bem. Não estou pra uma relação de brincadeira. Só que tem muitas coisas que estão me incomodando e precisamos corrigir. Dá pra concertar. Eu queria saber se você quer continuar. Se não quiser cada um segue seu rumo.

— Falando em acabar, é assim que você diz me amar? É, tem coisas que precisamos conversar mesmo. Eu não tenho mais certeza do que sinto por você. No começo a gente se entendia bem sabe, mas com o tempo as coisas foram mudando. E você continua com algumas coisas que me incomoda. Não gosto que você usa essas camisas sociais, são feias e você insiste em usar pra me pirraçar.

— Qual sua definição de amar Ruth? Me fala porra. Amor é uma escolha, uma dedicação consciente. A paixão acaba e depois volta, é um critério duvidoso. Quando eu disse que Te Amava eu disse principalmente que escolhia me doar para ti, algo que não depende de emoção. É perigoso ser escravo dos próprios sentimentos.

— O problema sou eu Roberto. Uma hora quero uma coisa, outra hora quero outra. Você merece coisa melhor do que eu. Pessoas assim como eu não merece se envolver com ninguém. As pessoas me veem feliz por fora, mas por dentro sofro demais, minha vida perdeu tanto o sentido, não vejo graça nas coisas como via antes. Eu não quero te ferir. Me desculpa se estou machucando seu coração.

— Você ainda não respondeu minha pergunta. E você que começou com essa história de Eu Te amo. Eu sei bem o que você está passando, passei por anos isso, você ignora que sei e estou capaz de te ajudar a passar por essa fase. Não venha com falsos pretextos.

— É o seguinte Roberto, eu sentia algo muito grande por você, pensei que agora realmente seria feliz. O problema sou eu, não você. Não quero fazer nenhum esforço, o amor não exige esforços. Quando é pra ser é, as coisas simplesmente conspiram a favor. 

— Eu não vou insistir, a escolha foi sua, unicamente sua. Estamos pondo um ponto final aqui. Não tenho culpa de nada, tentei te ajudar. Você é escrava das próprias paixões e quem manipular isso te tem na mão. Procure um terapeuta pra te ajudar. Beijo, AMOR! Adeus. 

— Tá bom, estamos terminando. Disse ela em lágrimas. 

Já era noite, fazia muito frio. Eu caminhei por alguns quarteirões organizando os pensamentos em minha cabeça de volta pra casa. Eu finalmente tinha encontrado uma resposta, mas no fundo minha intuição já tinha me dito tudo, paguei pra ver mesmo assim. Na maioria dos casos o pra sempre sempre acaba. E assim deixei a mulher que eu julgava amar. Infelizmente ela foi mais uma vítima da narrativa de amor romântico dos filmes americanos. Isso tudo é suficiente pra fazer um homem chorar. Se chorei? Sim chorei. Quem não choraria?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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