Aimê

Olá minha cara, tudo bem?

Peço perdão pela demora, precisei de um tempo só pra mim e reclusões me ajudam a colocar a cabeça no lugar. Obrigado por perguntar como estou e por demonstrar preocupações. É bom encontrar pessoas que ainda se importam. São como as luzes de um farol em meio a tempestade.

Eu não sei se já te disse, mas eu realmente adoro estar sozinho, adoro estar em casa com meus livros, meu blues, minha sunga velha, meu café fresco, meu vinho gelado e meu cozido de ingredientes duvidosos. Por outro lado detesto sair sozinho e isso tem sido um problema ultimamente. Eu tento, mas não funciona. Quando rola, acaba mal. É difícil sair de casa e isso tem preocupado minha família. Tentei o cinema uma vez, tentei manter meu foco no filme em meio a tantas crianças com as bocas cheias de doces, idosos dorminhocos e casais apaixonados. Foi dolorido, deprimente. Sabe, caminhar por ai sem ninguém me lembra do quanto estou só e a solidão é como uma víbora asiática: te rasga com os dentes se for cutucada, ameaçada, irritada. A última coisa que desejo é o veneno dessa solitude percorrendo o meu corpo. Prefiro manter essa serpente no terrário e alimentá-la rotineiramente bem. E é aí que entra o vinho gelado…

Contudo e, antes de tudo, peço-te para não se preocupar. Verdadeiramente me sinto ótimo, creio que não há necessidade de ajuda médica ou… psicológica, melhor dizendo. Sei que a nossa sociedade anda doente e sei que estamos em meio a um surto de tristeza, angústia e depressão, sei que as redes sociais escondem espíritos tristes e isolados. Contudo eu não sou um deles. Juro de coração. A minha vantagem sobre os demais é que, felizmente, nasci com um dispositivo interno que odeia a rotina. Então, quando a solidão se torna rotineira demais, eu arranjo forças (sabe-se lá Deus de onde) para voltar a ficar bem e eu fico. Acredite.

Quanto a minha vida sentimental, sinto decepcioná-la: estou sem atualizações. Quem eu amava há cinco anos, continuo amando. Do meu jeito, obviamente, e será assim até onde o destino permitir. Sei que você acha uma loucura tudo isso — a maneira como lido com minhas próprias emoções. Mas tente entender o meu lado, sweetheart. Amar, por si só, já é uma loucura. Amar e não ser correspondido, além da insanidade natural, cria uma chaga. Uma ferida enorme, aguda e aporrinhante, na parte mais sensível do peito. Você pode apelar para o álcool, pode entregar seu corpo a outra pessoa, pode se afundar no trabalho, na religião, nas drogas. Não adianta. Ela não cura. Essas atitudes, essas rotinas, são apenas métodos de abafar, limpar e anestesiar a ferida. Te permite dormir por uns dias. Te permite tirar dez naquela prova. Te permite curtir algumas baladas. Todavia após alguns semanas a dor reaparece de novo, geralmente de madrugada, tirando o sono, independentemente da posição na cama.

Tendo em vista que esse fenômeno é inevitável, busquei, estudei e desenvolvi alguns meios de tirar vantagens disso. Se adaptar as condições, arrancar leite de pedra. Meus antepassados fizeram isso com problemas infinitamente maiores, posso fazer também com algo tão besta como se apaixonar por alguém. Se eu fosse cego, daria um jeito de aprender a tocar piano. Se eu fosse tetraplégico, praticaria algum esporte olímpico. Destarte, já que o amor me dilacerou e não há o que se possa fazer, uso então toda sua energia condensada, seus desejos retidos, suas vontades encadeadas, para escrever poemas. É isso mesmo! Converto tudo em letras — as mais pesadas e destrutivas letras — querida. Tem sido terapêutico, tem funcionado bem. Você também é boa com os versos, deveria tentar. Iria se surpreender com o número de gigantes na literatura que começaram assim.

Enfim, acho até que já falei demais. Obrigado pelo seu carinho.

Volto a te escrever após a quarentena.

Fique bem.

Do seu grande amigo…

2 comentários em “Aimê

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