Maktub

Já tem um tempo que Nando vive sob fogo cruzado. Para ser mais preciso, são pouco mais de três anos nessa peleja. E, mesmo com as forças espirituais quase que esgotadas, ele pressente que essa história ainda renderá muitos capítulos. Se ao menos acreditasse em bola de cristal, tarô, cartomancia ou qualquer coisa do tipo, pagaria o valor que fosse para saber em quê tudo isso vai dar. Final feliz? Final trágico? São questionamentos que para ele, as respostas se esvaem como poeiras ao vento.

Nas madrugadas, com o rosário em mãos, o rapaz se ajoelha e ora a Deus. Não se considera integrante de uma religião, mas faz isso porque de alguma forma acredita que o Senhor é o autor de tudo que ocorre no universo. O cristianismo, por exemplo, crê que há um livro nos céus em que as obras de cada ser humano são anotadas desde o nascimento, e que um dia todos irão prestar conta dos seus atos. Já o Islamismo enfatiza a crença que Alá – nome atribuído a Deus no islã – tem a chave de todos os mistérios e pendurou no pescoço dos humanos o seu destino. – Será que estou designado a sofrer? Vou eu ser condenado pelas escolhas que fiz? Ó Deus, ajude-me! O céu sabe que eu tentei… – sussurra ele em oração.

Mas você pode estar se perguntando o motivo de tamanha aflição. Pois bem, há um nome para o sofrimento interno que Nando vivencia. E esse nome se chama Melina. Sim, foi por essa filha da puta que ele se apaixonou. Ela é simplesmente a garota mais sensacional que o jovem de vinte e quatro anos pôde conhecer. Porém, entre soluços e lágrimas, ele constantemente roga ao Altíssimo que o faça esquecê-la. Por causa dela, sua alma transita o céu e o inferno. E por mais que lute contra sua natureza carnal, no fim sempre quem vence são aqueles cabelos longos da cor do ébano, os olhos negros penetrantes, os lábios carnudos de um vermelho-vivo e a sensualidade de seu corpo escultural. “Melina, você é a minha salvação e a minha perdição. Como eu a amo sua desgraçada. E como eu a odeio…”.

Todas as vezes que em que se encontram, prometem que será a última vez. É um jogo um tanto arriscado. Isso porque Melina é casada com o empresário Alexandre Beltrão, um homem de trinta e cinco anos, alto, corpo atlético e cabelos um pouco grisalhos. Xande, como é conhecido pelos mais íntimos, é dono de uma rede de supermercados que recebe seu sobrenome – Supermercados BELTRÃO. E Nando, um simples funcionário que trabalha na ala de serviços gerais de um supermercado da zona leste da cidade, se envolveu com a esposa de seu patrão. Segundo Melina, ela sentiu atração pelo faxineiro desde a primeira vez que o viu, quando lavava a escadaria que dá acesso à sala de Galindo, o gerente. E a partir daí, a vida de Nando não foi mais a mesma.

Certo dia, numa tarde de quinta-feira, Alexandre ordenou que o funcionário fosse à sua sala. Ao entrar, Nando se depara com Xande sentado numa dessas cadeiras giratórias por trás de uma média mesa retangular de vidro, e em outra mesa à parte – também de vidro – está Galindo, digitando num notebook.

– Sente-se, por favor – fala Xande.

Nando acomoda-se na cadeira branca de plástico, um pouco apreensivo.

– Fernando, estive analisando seu perfil no quadro de funcionários, e vi que trabalha conosco há mais de três anos – diz o chefe sem desviar os olhos do papel que segura em mãos. – E pelo que soube, seu desempenho aqui tem sido um dos melhores.

– Obrigado chefe – responde ele meio constrangido. – Sempre procuro dá o meu melhor em tudo.

– Pois é justamente por isso que lhe chamei aqui – Xande agora dirige o olhar para Nando. – Não sei se você sabe, mas a Marilda está para se aposentar, e o Roberto foi transferido para o meu supermercado na zona sul. E para preencher essas vagas no setor administrativo, Galindo e eu conversamos e decidimos ofertá-las aos funcionários que mais se destacaram nas funções que lhes foram atribuídas, seja no quesito pontualidade, organização, atendimento ao público… E dentre os que trabalham nos serviços gerais, Galindo me informou que você foi quem mais se sobressaiu.

Nando olha para Galindo, que se mantém intacto em frente ao notebook. Depois retorna sua atenção ao empresário.

– Então eu lhe pergunto: – continua Xande – Você deseja ocupar uma dessas vagas rapaz?

– Eu… eu… ma… mais… mais é claro chefe, claro que sim, é uma… uma honra – fala Nando gaguejando de felicidade.

– Ótimo. Isso é resultado de um dever bem executado. E já que aceitou a proposta, vocês terão que passar por um… digamos… “estágio”, para aprender como as coisas funcionam, como devem realizar as atividades… Enfim… Veremos isso depois – Xande estende a mão para saudá-lo. – Então sendo assim, meus parabéns Fernando. A vaga é sua.

– Eu que agradeço chefe, estou muito… muito feliz e grato pela oportunidade que estão me dando – diz Nando também apertando a mão de Xande. – Muito obrigado mesmo. De verdade.

Xande assente com a cabeça.

– Foi um prazer conversar com você. Agora pode retornar ao serviço.

 Enquanto se levanta da cadeira, o jovem olha novamente para Galindo, que ainda se mantém atônito ao notebook. Quando já estava abrindo a porta, Nando ouve:

– Parabéns Nandinho – fala Galindo, fixando o olhar para o rapaz.

Nando vira-se, e ainda com a mão direita segurando o ferrolho, deixando a porta entreaberta, responde:

– Obrigado – retirando-se do local em seguida.

Em casa, já de noite, Nando tira a roupa e segue ao banho. Com a água do chuveiro escorrendo sobre seu corpo pardo e forte, ele se ensaboa lentamente. Está feliz por ter sido promovido. No entanto, não se sente merecedor, visto que a consciência acusa o seu pecado. Ainda no banheiro, ele ouve o barulho da campainha.

– Já vai, já vai – fala aos berros, enxugando-se rapidamente e envolvendo a toalha na cintura. Ele abre a porta.

– Boa noite docinho.

O sonho e o pesadelo de Nando acabara de chegar.

– Hummm… só de toalha hein. Do jeito que eu gosto – diz Melina enquanto o abraça e o beija no pescoço.

– Eu não esperava que viesse hoje – fala Nando fechando a porta e relutando às investidas da moça.

– Mas por quê? Eu tava com tantas saudades. Faz tempo que não temos uma foda gostosa…

– Quantas vezes eu já falei que isso tem que acabar Melina?! Não podemos mais continuar nos encontrando. Se seu marido descobrir, o que vai ser de você? O que vai ser de mim? E principalmente agora que fui promovido de função lá no trabalho…

– Então é mais um motivo para comemorarmos – diz ela enquanto se deita no sofá. – Não precisa ter medo Nandinho, não vai acontecer nada de mal.

– E quem garante isso? Você?

– Eu mesma. Tenho domínio sobre meu esposo. E posso lhe garantir que não precisa se preocupar, eu dou uma volta naquele dali num piscar de olhos.

– Por favor, vá embora – ele aponta a mão esquerda em direção à porta. – Não me procure mais, me deixe em paz, por Deus.

– Não estou te ouvindo – responde ela enquanto tira a blusa branca de alça fina e o sutiã bege em seguida, deixando a mostra seus seios firmes e pontiagudos.

– Por favor, não faz isso – diz ele passando as mãos na cabeça e no rosto. Seu pau começa a ficar ereto.

Após tirar a saia preta rodada e a calcinha de renda vermelha, ela acrescenta:

– Mais uma vez sou toda sua meu amor.

Ele a observa de cima a baixo. Resiste por mais alguns instantes, até que desiste de lutar contra o seu destino. Afinal, essa história, segundo a crença islâmica, tinha que acontecer.

– Quer saber de uma coisa? Que se dane o corno do seu marido. Que se dane tudo.

Ele joga a toalha no chão e coloca a sua amante nos braços, levando-a ao quarto. Lá, conecta o cabo do celular a uma pequena caixa de som, deixando tocar de inicio a música MENINA VENENO. Como um animal feroz e sedento por comida, o jovem pula em cima de Melina, consumindo todo aquele corpo que estava à sua espera na cama. Beijos e carícias são as preliminares. Enquanto Nando morde de leve o pescoço da sua amante, ela o envolve com as pernas e o aperta com as unhas, deixando marcas de arranhões nas costas do rapaz. Os minutos passam e eles transam como se estivessem em abstinência sexual, permitindo-se realizar loucuras e fantasias que outrora não ousaram fazer. As posições são as mais diversas possíveis. E quanto mais ela fala que dói, mais ele a penetra com força, fazendo com que gemidos se misturem ao som da música que agora está sendo reproduzida, COMO EU QUERO. Nas duas horas seguintes, Melina teve orgasmos múltiplos, algo que com Xande ela jamais tivera a experiência. Após atingir o mais alto grau de excitação, Nando se deixa cair na cama, totalmente suado e respiração ofegante. Melina o chama para se banhar.

– Daqui a pouco eu vou – responde ele.

Nesse momento, já ao som de VELHA INFÂNCIA, ele conclui o que sempre pensou, mas que não tivera coragem de admitir: que a sua relação com Melina não teria fim, pelo menos não enquanto os dois habitassem o mesmo mundo. Agora, só lhe resta saber qual serão as cenas dos próximos capítulos.

A moça termina de se banhar. Enquanto se veste, Nando, ainda deitado, a observa.

– Tá pensando em quê? – pergunta ela.

– Em nós – responde ele, dando uma pequena pausa. – Estamos nesse fogo cruzado há um bom tempo, né?! Acho que o destino nos pregou uma peça.

– Bom, se foi o destino eu não sei. Só sei que eu gosto de você, gosto de ficar com você, meu riso é tão feliz contigo… – cantarola ela junto com a canção, aproximando-se dele e o beijando. – Vou partir. Nos vemos outro dia. Até logo meu amor.

– Até!

Ela se retira do quarto e vai embora do casebre alugado de Nando. E ele continua na cama, com o olhar distante. A música agora é DONA, e ele reflete o trecho executado:

[…] pra sentir a impaciência do teu pulso de mulher

Um olhar me atira à cama, um beijo me faz amar

Não levanto, não me escondo

Porque sei que és minha Dona…

Com um leve sorriso no rosto, ele novamente vai tomar banho. Ao terminar, veste um samba-canção e prepara algo para comer. Em seguida, assiste rapidamente a uma reportagem sobre o aumento do preço da carne bovina, fazendo-o recordar de duas senhoras no supermercado que reclamavam desse aumento dias atrás. Minutos depois, decide dormir. O perfume dela ainda se encontra nos lençois. Se outrora pedia a Deus que o fizesse esquecê-la, agora pede que o faça sonhar com sua amada todos os dias.

Uma semana depois, num sábado à noite, Xande e Galindo realizam uma pequena festa para anunciar aos demais funcionários os promovidos às novas funções. São chamados à frente de todos Dayse, que trabalhava no caixa, e Nando, dos serviços gerais. Aplausos dominam todo o ambiente. Nesse momento, Nando olha para Melina, que lhe retribui com uma piscadinha de olho, toda sorridente. A festa dura por mais uma hora, até serem liberados.

Chegando em casa, Nando se joga no sofá, meio chapado devido as bebidas que ingeriu na festa. Quando estava quase cochilando, ouve o som da campainha. Meio atordoado, ele se levanta e abre a porta, assustando-se com a presença daquela pessoa.

– Galindo? O que… o que você faz aqui a essa hora?

O gerente, ainda com a roupa que usava na festa, traz consigo uma garrafa de vinho.

– Não vai me convidar para entrar?

Com o semblante de sono, Nando o direciona para dentro. Observando o casebre, Galindo repara com olhar de desprezo os móveis e cômodos da casa.

– O que houve Galindo? – perguntou o jovem, esfregando os olhos. – Estranho você vir aqui na minha casa. Algum problema?

– Eu pensei que você vivia numa situação melhor – Galindo vira-se para Nando. – A dona Melina nunca lhe deu dinheiro para… sei lá… viver em um ambiente mais agradável?

Ao ouvir essas palavras, Nando sente o sangue esvair de seu rosto. Tem a sensação que vai desmaiar, mas se mantém firme. Fixa um olhar assustado para Galindo, que está em sua frente, com um leve sorriso no canto da boca, esperando a próxima reação. Nando se recorda do episódio do supermercado, do dia em que compareceu à sala do gerente. “Parabéns Nandinho”. Aquele parabéns… Aquele olhar de Galindo… Sim… Tudo agora fazia sentido. Galindo já sabia de tudo. E ele estava ali em sua casa para não sei o quê…

– O que foi, ficou mudo?!

– Do que… Do que você está falando?

– Ah, não se faça de estúpido – o gerente põe a garrafa de vinho na pequena mesa de centro de madeira e se acomoda no sofá, cruzando as pernas e esticando os braços na parte alta da mobília. – Vamos direto ao ponto: eu sei do seu casozinho com a patroa lá, e vim aqui para negociarmos.

– Negociar o quê? Aliás… Quem te falou um absurdo desses?

– Isso é o que menos importa. Mas podemos resolver essa questão brindando – Galindo se levanta e se aproxima de Nando, apalpando-lhe os músculos dos braços. – Ou quem sabe… transando?!

– Como é que é? – Nando se afasta, e esboça um semblante de espanto. – Você só pode estar de brincadeira com a minha cara né?

– Claro que não Nandinho, imagina! Eu vim para lhe propor apenas… uma noite de amor, e assim eu fico de bico calado. Vai ser um segredo só nosso.

– Você só pode estar louco. Saia da minha casa agora seu…

– O Xande vai adorar saber que o funcionário promovido tem um caso com a esposa dele – fala Galindo, interrompendo-o. – Como será que ele vai reagir, hein?! Se eu fosse você, teria bastante cuidado.

– Escuta aqui, eu não tenho medo do Xande, não tenho medo de você, e qualquer que tenha sido as suas intenções pra ter a ousadia de vir até a minha casa e me propor isso, vai ficar frustrado, porque eu não vou ceder a essa chantagem barata. E ainda que eu fosse gay, nunca que teria algum tipo de relação com você – Nando se dirige a porta e a abre, falando aos gritos: – Agora saia da minha casa e não volte nunca mais aqui.

Galindo fita Nando por alguns segundos, com um semblante furioso. O jovem percebe o ódio nos olhos de seu gerente.

– Vai se arrepender disso – fala ele, saindo em passos lentos. Ao atravessar a porta, volta-se para o rapaz e acresenta: – Aproveite bem o vinho.

Nando bate a porta. Fica sem saber o que pensar ou o que fazer. Passa as mãos na cabeça, passa a mão na boca, anda de um lado para o outro. Num ato de desespero, dá socos na parede com os punhos cerrados e chuta os móveis da sala, gritando de raiva. Atordoado, ele tira o celular do bolso e liga para Melina, mas o celular da moça encontra-se desligado.

– Merda! Merda! Merda! – ele atira o celular no chão. – Como será que aquele desgraçado descobriu?!

Depois de muitos questionamentos, o rapaz se senta no sofá e diz consigo:

– Seja lá o que ele for fazer, tenho que sair dessa situação o mais rápido possível.

Então ele corre para o quarto, e meio que alvoroçado, prepara as malas…

Na volta para casa, Galindo dirige o carro acima da velocidade, refletindo sua vida. Nunca viveu um amor verdadeiro, apenas encontros casuais ou sexo por meio de chantagens. Ao pensar nisso, chora de raiva e desconta sua ira dando socos no volante. Num certo momento, decide encostar o carro numa rua pouco movimentada. Logo após, pega o celular e o segura forte, pensando se faz ou não o que está em mente. Minutos depois, digita alguns números. Do outro lado da linha, Xande, usando apenas uma cueca boxe cinza e com um copo de wiski na mão, ouve em silêncio as palavras de Galindo do alto da varanda de seu quarto, contemplando a enorme piscina de sua residência. Dando um gole da bebida, ele apenas acresenta:

– Obrigado pela informação.

Por trás de si, se achega Melina, completamente nua, abraçando-o.

– O que foi amor, algum problema? – pergunta a esposa.

Xande vira-se, e com um olhar malicioso, responde:

– XEQUE-MATE – ingerindo em seguida o pouco de whisky que ainda há no copo.

Melina fita-o, sem esboçar reação. Ela sabe perfeitamente o significado dessa palavra.

***

Ao desligar o aparelho, Galindo recorda o número do garoto de programa ao qual havia marcado um encontro no mês anterior. Ele liga para o michê.

– E ai gato, tudo bem?! Tá disponível pra agora? Sim? Que bom – ele dá uma risada contida. – Então já já eu chego aí. Até daqui a pouco. Ah, e coloca uma cueca apertadinha, tá? Beijo.

O gerente desliga o celular, enxuga o rosto com a manga de sua camisa social azul e segue ao seu atual destino. Após o sinal verde abrir para o transito na Avenida Valter Machado, um carro vindo em alta velocidade na Avenida Ricardo Soares ultrapassa o sinal vermelho e atinge o veículo de Galindo no cruzamento, fazendo aquele trecho ficar iluminado com a explosão dos dois carros logo em seguida. Fumaças ao céu e trânsito engarrafado agora dominam a cena da intensa noite de sábado.

Em seu casebre, com as malas prontas, Nando se encontra sem sono, rolando na cama em plena madrugada. Pensa em orar, mas sua fé não está lá essas coisas. Não pode contar com a fé no momento. Precisa agir com a razão. E a razão lhe diz para logo cedo pegar o primeiro ônibus com destino ao interior do estado, longe de Xande, longe de Galindo e longe de… de Melina. Por mais que seja difícil se distanciar de seu amor, é a decisão certa a ser tomada. Algum dia, quem sabe eles possam ficar juntos. Não pensou na expressão “felizes para sempre”, porque é clichê e soa cafona. Recorda-se de cada momento com sua amante: os encontros secretos, as noites de amor, o quanto ela de algum modo lhe fazia feliz, mesmo ambos correndo riscos. Mas breve se aproximava o momento de partir.

Meia hora depois, o jovem adormece. Não sonha, nem tampouco tem pesadelos. Havia colocado o celular para alarmar às seis da manhã. No entanto, às cinco horas, o celular toca. Nando acorda como que um pulo, assustado. Tentando se aprumar na cama, ainda com a visão meio embaraçada, fica gélido ao vê Xande sentado numa cadeira de madeira no quarto, encarando-o e com o celular em mãos. O dono da rede de supermercados desliga o alarme de seu aparelho.

– Vejo que está de malas prontas Fernando. Vai viajar? Mais logo agora que você iria ocupar um cargo de maior responsabilidade…

Nando fica apreensivo, coração batendo forte, tentando imaginar como seu patrão conseguiu entrar sem ser notado. Mas o que lhe chama atenção é a expressão usada “iria ocupar”.

– Sabe que você deu trabalho para ser descoberto?! Soube se camuflar direitinho hein, meus parabéns – Xande bate palmas lentamente. – Nunca imaginei que a safada da minha esposa pudesse se envolver com um… um faxineiro – fala ele num tom de deboche.

– Chefe, eu posso explicar… Eu…

– Porém, tem uma coisa que você não sabe Fernando – continua Xande, interrompendo-o. – O meu casamento com Melina é um jogo. Vou explicar melhor para que possa entender – ele se levanta da cadeira e começa a andar de um lado para o outro do quarto. – Eu traio Melina, e ela tenta descobrir quem é a minha amante. Ela coloca um par de chifres em mim, e eu tento descobrir quem é o safado que tá comendo minha mulher. Compreende como as coisas funcionam conosco?

Sem acreditar no que ouve, Nando diz:

– Vo… Vocês são loucos? Mas que tipo de relacionamento é esse?

– Um relacionamento moderno, meu rapaz – responde o chefe. – O ser humano tem que evoluir, ou pelo menos tentar se adaptar as novas formas de viver. Mas como eu falava no início… O nosso casamento é um jogo. E você foi apenas uma pequena peça manuseada nesse xadrez.

– O que quer dizer com isso? – o coração de Nando fica mais acelerado.

– Quero dizer que esse jogo acaba para você hoje – Xande tira o revólver com silenciador da cintura, destrava e o aponta para Nando.

– Ei, ei… Calma chefe, calma, pelo amor de Deus, não atira – diz Nando desesperado, encostando-se na cabeceira da cama e com as mãos posicionadas para frente. – Podemos resolver isso de outra forma.

Mirando o seu alvo, Xande fala:

– Eu já resolvi!

Três tiros à queima roupa. Três balas liberadas. Duas das balas atingem a barriga de Nando, e a outra, o lado direito do peito. O lençol da cama vai aos poucos absorvendo o sangue. Xande não atira em suas vítimas na cabeça ou no coração, prefere que sofram antes da escuridão dominá-las de vez. Ele põe a arma de volta na cintura e sai da cena do crime, contabilizando em mente o décimo quarto assassinato dos amantes de Melina.

Agonizando, Nando sente sua vista escurecer. Não consegue mais ter domínio de seus sentidos. Em poucos segundos, ou se tiver sorte, minutos, irá morrer na cama em que por muitas noites foi feliz com sua amada. No entanto, era tudo um jogo. E ele foi apenas uma peça. Melina o traiu, o enganou, nunca o amou de verdade. Em mente, amaldiçoa o dia em que a conheceu. Mas ainda assim, acreditava que tudo tinha que acontecer da forma que terminara. E antes de sua alma fazer a longa jornada, nos últimos suspiros, sussurra “MAKTUB – JÁ ESTAVA ESCRITO”. Por fim, a escuridão da eternidade o abraça. Para sempre.

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