Aquela eterna Flor

Oi,

Boa madrugada.

De todo meu coração, eu espero que estejas bem, pra valer.

Não escrevo para dizer muita coisa, afinal de contas, eu não pareço fazer falta na sua vida. Escrevo porque preciso. Porque, escrevendo, tenho noção do que sinto e, se tiver noção do que sinto, saberei como me tratar. Não é tão complicado escrever, como disse Hemingway: “não há nada na escrita. Tudo que você precisa fazer é sentar diante da máquina de escrever e sangrar”. Por isso mesmo, vou dizer algumas coisas que permeiam meu coração, goste você ou não, ignorando-me ou não. Vai ter que ser assim. Desse modo terei a anatomia completa da minha dor. E uma vez com o diagnóstico em mãos, com sorte, estarei curado até o nascer do sol, se Deus quiser.

Sabe, ainda lembro de você aos sábados à noite. Ainda lembro de você quando caminho sozinho. Ainda lembro no Natal. Ainda lembro quando ouço Rod Stewart. Ainda lembro quando como bolo de pote – sabor leite ninho. Meu cérebro ainda armazena parte do seu jeito, parte do seu cheiro. Acho até que precisa dele para funcionar, não sei até quando. Sua lembrança é um combustível eficiente, tão eficiente que não penso em trocá-lo, ao menos não por hoje.

Como já era esperado, eu não corri atrás de você e nem vou correr. Meu orgulho não permite isso e jamais permitirá. O que é engraçado pois, de vez em quando me pego pensando no número de ocasiões em que deixei o orgulho de lado por você. Fazia sem perceber. O amor disfarçava tudo; um cimento poderoso. Pra tê-la comigo, cedi um milhão de vezes, nadei contra a maré, contra minha própria natureza, porque ansiava pelo bem de nós dois, porque realmente desejava que as coisas dessem certo no fim.

É. Eu sei. Não deu. Mas se acha que estou arrependido querida, achou errado. Eu tenho minhas regras – e o orgulho é uma delas -, mas regras só existem para serem quebradas, não é? Ou para que funcionem com, no mínimo, uma exceção. Eu te juro que desejei você como exceção para TODAS as minhas regras. Amaria te ver com acesso ilimitado ao meu coração e aos segredos da minha alma. Não rolou, talvez minha alma não fosse suficiente pra você, talvez fosse pouco. Tanto faz, eu gostei de ter tentado.

Eu não lamento pelo fim, não lamento pela forma que ele veio. Quando acaba: acaba! Ponto. Não há como romantizar. Não existe um fim bonito. Ele é um ogro, ele é imperfeito. É cheio de defeitos, fede, tira o nosso fôlego, causa insônias, lágrimas indesejadas e espinhas. Minhas lamentações não são pelo fim (foda-se o fim!), elas estão presas nos dias, nas horas e nos minutos do tempo em que ainda tinha você e não aproveitei. Tudo foi perfeito demais, foi mágico demais. Éramos uma boa dupla. Aliás, quem eu quero enganar? Éramos a melhor das duplas! Os anos passaram sem percebermos e a ficha parece nunca cair. É provável que jamais caia. Será rotina viver relembrando. Haja bolos de pote.

Sem ter nem mesmo o apoio das redes sociais, não tenho a mínima ideia de como você está. Por onde anda. Se seus amigos estão contigo. Se sua família te apoia. Não sei se está conhecendo alguém, não sei se ele te merece. Não sei se a nossa história ainda mexe com você. Não sei se você já superou. Eu procuro não meditar sobre essas coisas, atitude que inevitavelmente me faz meditar sobre essas coisas. Não dá para tapar uma ferida para sempre, ela precisa de ar. É o que busco fazer aqui. Não espero que compreenda.

Não serei clichê. Não vou concluir com um “boa sorte” seco, com uma mensagem positiva, ou uma frase de caminhão. Seria fácil e vazio, convenhamos. Eu disse que precisava vomitar o que sentia para entender o que de fato me aflige. E consegui. Só agora, tão longe de ti, sou capaz de perceber o quanto de você ainda resta dentro de mim. Dado que em parte é feliz, em parte é triste. Tipo chocolate com pimenta. O melhor chocolate, com a mais mortal das pimentas.

No entanto, sabe como é meu bem, não podemos deixar a peteca cair. Tenho pessoas que dependem de mim. Tenho um trabalho pra tocar. Preciso estender um tecido emocional controlável. Preciso fingir para que a sociedade me engula sem muitas perguntas. Logo após o nascer do sol, iniciarei um longo projeto para abafar essa chama que restou no meu peito e conseguirei abafá-la. Pode ser que demore, pode ser que não. Não me importo. Certamente não serei uma pessoa melhor depois disso e acredito que não mereço ser. Novamente: de todo meu coração, eu espero que estejas bem. Você precisa estar. Você sempre foi a mais forte e a corda nunca arrebenta para o lado mais forte.

Hemingway estava certo, eu sangrei tanto que poderia carimbar essa carta com todo carinho que ainda não evaporou. Porém a aurora logo cuidará disso.

Não escreverei mais sobre nós dois. Se já havia acabado pra você, hoje acabará para mim.

É. Eu disse que não serie clichê, but you know me, esse é meu jeito de fazer as coisas, usando drama e palavras que as pessoas normais escondem em baixo do colchão.

Eu sei que você entenderá. Ou melhor, sei que já entendeu quando escolheu não ler até aqui.

Sinto-me aliviado. Meu diagnóstico ficou pronto. Não é terminal, ao que parece…

Adeus.

O que você foi não vai acontecer de novo. Os tigres me encontraram e eu não me importo mais” – Charles Bukowski

4 comentários em “Aquela eterna Flor

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  1. “O que tu viste amargo, Doloroso, Difícil, O que que tu viste breve, inútil
    Foi o que viram os teus olhos humanos, esquecidos…enganados…
    No momento de tua renúncia Estende sobre a vida Os teus olhos E tu verás o que vias:
    Mas tu verás melhor…”

    Cecília Meireles

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