Manchado de verdades

É complicado narrar essa história. Era uma noite triste e eu não dormia há três dias. Andava refletindo sobre minha própria vida e papel desempenhado nela. Após muito matutar, cheguei à conclusão de que, apesar do mundo se atualizar diariamente, talvez algumas coisas estejam destinadas a não mudar. Meus avós, por exemplo, reclamavam da falsidade humana, principalmente com relação as amizades que tinham. “Como pode ser meu amigo se me procura apenas quando tá mal? Isso não existe! Quando fulano tá feliz, com dinheiro, com amor, ele desaparece!”, reclamava meu avô. Ele estava certo. Eu conheço o mesmo tipo de gente que pratica o mesmo tipo de ação. A tecnologia não deu um fim nisso, pelo contrário: só piorou ainda mais a situação.

Bem, eu disse que era uma noite triste porque, enquanto ponderava sobre esses e outros assuntos, parei na mesa de um bar lá do baixo Méier. Fui bem vestido, muito bem vestido. Saí de casa dizendo que encontraria alguém, uma garota, apenas para despreocupar minha mãe. Entretanto não havia ninguém além de mim mesmo. Seria só mais uma dessas noites em que saio sem rumo por aí. “Se eu ao menos me encontrasse nessas jornadas já estaria no lucro”, pensava. A primeira cerveja chegou, enchi o copo e bebi sem ter com quem brindar. Sou um cara supersticioso e ter que beber sem brindar ativou meu sensor de má sorte a princípio, contudo tratei de silenciá-lo. Há anos me sentia só, até quando estava acompanhado. Sorte ou azar, um trevo de quatro folhas, um gole sem brindar, nada disso faria diferença.

O pequeno palco estava montado e nele apareceu um cantor alto, magro e careca. Usava uma blusa florida e um violão vermelho. Tinha o agudo desafinado e começou cantando uma do Geraldo Azevedo. “Dona da minha cabeça”, só na voz e violão. É uma música profunda, exige talento, sinceridade ou, quiçá, muita dor, memórias e sofrimento. Eu acho que ele tinha essas últimas características, pois simpatizei com ele. A casa começou a superlotar. Pareceu-me um bar LGBT. Não havia notado quando entrei. Não havia notado quando pedi minha bebida. De repente o local estava cheio de casais homossexuais, mulheres em sua maioria. Os garotos, por outro lado, bebiam em grupos. De cônjuges mesmo, apenas os caras mais velhos. Continuei entornando no meu canto. Durante quarenta minutos tive a sensação de que até a internet havia me abandonado. Minhas notificações e minhas mensagens não atualizavam por nada. O status alheio estava bombando. Todo mundo por aí se divertindo de algum modo. Eu me sentia mal, não por inveja ou por raiva. Sentia-me incapaz de conseguir vivenciar tudo aquilo com a mesma intensidade deles. A vida dos demais parecia uma roda gigante: haviam altos e baixos, gritos e alívios. Minha vida, em contrapartida, lembrava um trem fantasma. Um trem fantasma que quebrou durante o percurso. A única coisa que dá pra fazer é torcer pra viagem acabar enquanto se leva sustos de demônios aleatórios. As pessoas normais absorviam tudo com naturalidade. As coisas boas, as coisas ruins. Eram como toalhas molhadas que, no primeiro sinal de luz solar, secavam novamente e se preparavam pra mais uma. Eu não conseguia ser assim. Se me jogassem no sol, continuaria molhado. Fazia do meu coração um porão e trancafiava dentro dele os traumas e loucuras usuais da juventude, uma absorção sem fim. Duas coisas me ajudavam: minha distância natural de todos os outros e o fato de que boa parte daqueles que me rodeavam eram do tipo que meu avô descrevera; eles me procuravam quando estavam péssimos e eu suava para deixá-los no topo. Quando era a minha vez… Hã! Pois bem, não havia com quem brindar.

Quando a música acabou, o garçom veio deixar mais uma cerveja. Aproximou-se sorrindo e piscou o olho. Coçou o queixo e, disfarçadamente, pôs um pedacinho de papel na minha mesa. Era um desses papéis de cupons fiscais. “Desculpa meu companheiro, mas eu sou hétero, entrei no bar sem perceber, sem pesquisar, espero que isso não incomode”, falei. Ele gargalhou e colocou uma das mãos no meu ombro. “Quem te quer não sou eu, meu brother. É a garota de batom vermelho lá da mesa quinze”, retrucou o garçom apontando para a mesa em questão. Em seguida, ele saiu. Enchi outro copo, peguei o papel e desembrulhei com todo cuidado do mundo para não rasgar. Esperava um nome, um número de telefone, um e-mail. Enfim. As expectativas ferveram junto com o álcool, porém mantive a pose. Mandei meu coração sentar e esperar, tal como um cachorro domado. Consegui me resolver com o papel e lá estava. Pude ler o conteúdo. Errei todas as previsões, era uma pergunta, ou melhor, uma escolha. Dizia: “Oi. Boa noite. Você está sozinho ou está esperando alguém? Se estiver esperando alguém não faça nada, continue na sua. Agora, se estiver sozinho e quiser conversar comigo, por favor, coce o cabelo, eu vou entender que é um sinal”. Enchei os pulmões e expirei com toda calma do universo. Olhei com carinho para a mesa quinze. Três meninas conversavam e uma me retribuiu o olhar como se eu fosse uma suculenta zebra africana. Não consegui arranjar um exemplo melhor, pois me lembro de ter visto exatamente aquele mesmo olhar num desses documentários sobre leões famintos e sanguinários. A garota que me encarava tinha o cabelo curto, encaracolado, cheio. Óculos suspensos um pouco acima da testa. Gargantilha e vestido pretos. Não era gorda nem magra, suas curvas eram do padrão mulher dos anos cinquenta. Suas amigas eram o oposto: uma era bem mais magra e outra bem mais cheia. Todavia eram um casal — um belo casal, por sinal. A solitária do trio era a minha leoa, ao que tudo indicava. Mas ela parecia estar a fim de mudar essa situação e precisava da minha colaboração para fazer acontecer. Bom, dada as circunstâncias, mordi os lábios e cocei meu cabelo feito um cão sarnento.

Ela sentou ao meu lado e trouxe consigo seu copo de caipirinha. Expliquei — forçando o grave da voz — que poderia ir até a mesa quinze, assim ela não precisaria ficar longe das amigas, mas ela cortou minha fala dizendo que desejava privacidade. Calei-me e nos cumprimentamos.

— Oi! Sou Laryane. Desculpa te pedir para coçar o cabelo, eu amei seus cachos! Não consegui pensar em mais nada.

— Tudo bem, Lary. Boa noite. Sou Alexandre. Alexandre Varella.

— É um prazer, Alexandre.

— O prazer é todo meu.

— É a primeira vez que você vem aqui no bar? Não lembro de ter te visto aqui.

— É. Eu não sou daqui. Moro longe. Pra você ter uma ideia eu sequer sabia que era um espaço LGBT, só descobri depois que lotou.

— Jura? Mas… Isso de alguma maneira te incomoda? — questionou-me.

— Não, pelo contrário.

— Então você também curte… sabe?

— Ah, ora. Não. Não. Eu sou hétero até o avesso, meu bem. Mas não sou uma pessoa preconceituosa. Na verdade, acho bizarro vivermos num mundo em que ainda é preciso se explicar assim. É complicado, não concorda?

— Porra. Com certeza!

Fizemos uma pausa para beber mais um gole. Lary e eu falamos um pouco mais de nós mesmos. Profissão, cidade natal, gostos musicais, bebidas favoritas, séries assistidas, dentre outras coisas. Daí o careca começou a tocar “Encostar na tua”, da Ana Carolina. Lary passou a cantarolar baixinho e a remexer o corpo. Eu conhecia aquele jeito de ser, não era o álcool, era felicidade. Era uma daquelas pessoas da roda gigante. Ela era espontânea, impulsiva, corajosa, ousada. E eu, ao menos naquela noite, estava o oposto exato de tudo aquilo. É estranho como as coisas mais antagônicas se atraem. É assim que se constrói histórias verdadeiras. Sei bem disso. Essa base teórica eu tenho. Meu receio era a parte prática. Normalmente dava merda na parte prática. Cruzei os braços e comecei a fita-la. Era a minha vez de bancar o leão. Em dado momento ela percebeu e ficou sem graça.

— Desculpa, meu bem. É que amo Ana Carolina — disse-me.

— Desculpá-la? Pelo quê? Estava amando assisti-la.

— Pô! Sou uma péssima dançarina. O máximo que sei fazer é isso que você viu: se mexer e ponto! Sem sair do lugar — Ela ria e eu também.

— Eu também não sei dançar, pareço um robô com a pilha fraca.

— Hahahahaha! Essa eu preciso ver!

— Não! Não precisa. Poupe seus olhos.

— Hahahahaha! Você é engraçado.

Houve então um daqueles silêncios que parecem obrigatórios em qualquer diálogo verdadeiro. Apreciávamos a música e ela simplesmente tocou na minha mão. É. Eu precisava arriscar.

— Cara, sendo bem sincero, eu preciso agradecê-la — disse.

— Agradecer? Por que?

— Estava tendo uma noite de merda até você chegar. Tipo, bem pra baixo mesmo. Como toda iniciativa foi sua, devo agradecê-la por isso, por acreditar que daqui nasceria um bom diálogo e nasceu.

— Bom, então eu quero propor um agradecimento melhor que as suas palavras — respondeu Lary.

— Um brinde? — Perguntei. Foi no automático. Ainda estava com a superstição na cabeça.

— Brinde? Não, seu mané. Um beijo. Me beije! Se você gostar, ganha outro. E a gente pode prosseguir nisso até a sua noite mudar da água pro vinho.

— Ok. Eu concordo.

Ela então soltou a minha mão e subiu os dedos até meu cabelo. Pegou em um dos cachos e o desmanchou sorrindo. Aproximei meu rosto dela e a beijei. Um selinho curto, de leve. Afastei os lábios lentamente, tão lento quanto foi a aproximação. Abri os olhos e ela me acompanhou, de modo quase sincronizado. Nossas pupilas namoravam, aguardavam o próximo passo, feito fera e caçador. Dilatadas, uma escoltava a outra, iniciaram a festa na nossa frente. Foi quando um dos LEDs do palco cruzou o pequeno vazio entre os nossos rostos, beijei-a novamente. Dessa vez pra valer. Sem pressa, sem afobação, línguas casadas, mordida nos lábios, transpiração acelerada, cheiro de limão. Bendita sejam as caipirinhas! Peguei-a pela cintura e ela apertou ainda mais o meu cabelo. Virei a cabeça para o lado contrário e seguimos exatamente os mesmos passos do beijo anterior, como um reflexo, como a confirmação de uma mensagem. É raro encontrar alguém cujo o beijo combine de primeira. É algo que a humanidade deveria valorizar mais. Mais que política. Mais que a fome. Mais que as guerras. Concluí com o mesmo selinho de antes e ela beijou o meu rosto. Recompus-me.

— Ah, droga! Acho que sujei sua bochecha com meu batom. Tem algum problema? — perguntou-me.

— Não. Nenhum, baby.

— Você é um amor. Vou ao banheiro retocá-lo, beleza? Já volto! — disse-me.

— Sem problemas.

Lary então saiu e eu tirei a garrafa de cerveja da camisinha. Fiz um sinal para o garçom pedindo mais uma. Ele consentiu de longe. Ajustei-me na cadeira e peguei o celular. Assim que coloquei a senha, o aparelho caiu no chão. Quicou duas vezes e desapareceu em baixo da mesa. Agachei-me para procurar, encontrei e, quando sentei novamente, tomei um susto: estava tudo escuro. Literalmente TUDO escuro. Não havia mais bebida, nem música, nem pessoas, nem a luz, nem a vida. Ninguém. Era só eu e… eu. A realidade se foi em segundos, como num passe de mágica. Era como se puxassem a tomada da existência. Levantei-me e caminhei pelo breu. Quanto mais andava, mais sentia que não saia do lugar. O desespero tomou conta e o estomago começou a embrulhar. Não durou muito tempo até uma mão gelada tocar minhas costas. Virei-me de relance e, então, abri os olhos. Lá estava o garçom, as luzes, a música, as pessoas. Senti saliva entre o canto da minha boca e a mesa. É. Isso mesmo. Eu havia dormido e estava sonhando.

— Oi. Desculpa. É que o senhor dormiu por mais ou menos uma hora e meia, achei que deveria chama-lo — disse o garçom.

Ergui-me devagar. Minhas pernas estavam dormentes, não consegui levantar. Peguei um guardanapo e limpei a mesa. Lá estava eu, de volta, na vida real.

— Qual é seu nome, parceiro? — Indaguei.

— Douglas.

— Obrigado Douglas. Eu me chamo Alexandre. Perdoe-me, eu não durmo há três dias.

— Porra, sério? É complicado. Eu sabia que não podia ser a bebida. Até onde sei, três garrafas de cerveja não derrubam ninguém. Nem mesmo iniciantes.

— Foda né?

— É…

— Escuta, Douglas. Você chegou a me passar algum papel embrulhado? Da menina na mesa quinze?

— Mesa quinze? Não. Não te dei nada, senhor. De todo modo, as três meninas que estavam lá já foram embora. Foi uma delas, inclusive, que veio me dizer que você estava dormindo.

— A da gargantilha?

— Exatamente!

— Puta merda… Faz um favor pra mim, Douglas?

— Claro, pode falar.

— Feche a minha conta, por favor.

— Tá jóia, deixa comigo.

— Aí, vou te dar vinte por cento a mais pelos serviços. Você é dez, meu parceiro.

— Obrigado, senhor Alexandre.

Paguei a conta, dei a gorjeta e deixei o bar com toda vergonha do mundo. Era uma noite nublada e quente. Atravessei calçadas e avenidas até a estação de trem. No caminho, passei pelo vidro espelhado de uma loja de roupas e encarei meu vexatório aspecto. Reparei cada ponto do meu corpo enquanto questionava minha babaquice. Então foi aí que eu a vi. Lá estava ela! Entre a bochecha e o canto da boca: a marca do batom vermelho. Travei de primeira, depois cheguei mais perto do vidro e fiquei observando. Como diabos isso pode ter acontecido? Como? Se Douglas não me viu com a garota? Se o papel nunca chegou? Se tudo não passou de um sonho? Como eu poderia ter sido beijado? Uma ambulância cortou a rua com a sirene altíssima. Meu celular voltou a vibrar. Elas chegaram: as notificações, as mensagens, os novos status. Despertei novamente para o mundo real. Puxei a gola da blusa, limpei meu rosto e fui embora pra casa…

2 comentários em “Manchado de verdades

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  1. Meu bem, talvez as pessoas não são falsas assim, é o ponto de vista.
    Pode não parecer, mas elas estão lá, a cada dia pensando em algo para quebrar o clima e retornar o contato, pode ser do acaso as notificações aparecerem quando vê-se certa tristeza no ar…
    Ah meu bem, talvez as pessoas não são falsas assim, é falta da palavra, mesmo tendo o alfabeto todo em mãos, é falta do motivo, mesmo com milhões de desejos no coração.
    A distancia ajuda, atrapalha, envolve, afasta… Nos perde.
    Mas meu bem, lembre-se. As vezes o azul do céu é tão intenso, a música que toca no rádio – tem naquela playlist comum, o garçom com sotaque não goxtoso…
    Que mesmo com tantas coisas… A vontade de sentir-se como idiota, e encher o celular do outro com notificações é grande.
    Meu bem, eu te garanto. Talvez as pessoas não são falsas assim.

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