Valeu a pena essa loucura

Ela sobe as escadas lentamente. Seus passos avançam como se estivessem metricamente calculados. E à medida que sobe os degraus, seu coração bate cada vez mais forte. Por um instante, arrependeu-se por não ter usado o elevador para chegar ao destino que lhe aguarda.

Minutos depois, ali está ela, em frente a uma porta. Não prestou a devida atenção para saber em qual andar daquele edifício se encontrava. Porém, o número do apartamento ela jamais esqueceria – 514. Atônita, ela fita aquele número, imaginando o que haveria de acontecer lá dentro. Nesse momento, um turbilhão de pensamentos lhe floram à mente, fazendo-a ter um breve mal-estar. “Eu ainda posso fugir dessa loucura”. No entanto, esse pensamento logo se desvencilha. Ela passa as mãos em seu rodado vestido rosé de estampa floral, alisa os cabelos louros e apruma bem a bolsa à tiracolo em seu ombro direito. “Que se d*. Eu cheguei aqui e vou até o fim”.

Ela olha rapidamente para os lados. Não constata a presença de ninguém. Se alguém a visse nesse momento, pensaria que estivesse a ponto de cometer um crime. Mas ela sabe que precisa agir logo. Hesita por mais alguns instantes, até que por fim, o faz. Três batidas na porta…

Passos se aproximam. Seu coração ainda se encontra acelerado. Ferrolho se move e a porta se abre. Um homem, usando apenas uma bermuda poliéster cinza-claro, a atende.

– Boa noite! Entre, por favor.

Com cara de paisagem, ela entra no apartamento, se esforçando ao máximo para demonstrar naturalidade. Observa de relance os móveis situados na sala. “Quantas pessoas será que já estiveram aqui?” – pergunta para si mesma.

– Vamos para o quarto – fala o rapaz, conduzindo-a.

Ao entrarem, ele pega o celular sobre a cama e visualiza alguma coisa. Sem que ele perceba, ela o observa. “É claramente como na descrição: 1,79 de altura, mulato, olhos castanhos”… Ele põe o aparelho sobre a cômoda e se dirige a ela, abraçando-a carinhosamente.

– Hum… Está cheirosa!

– Eu… eu quero fazer logo o pagamento – diz ela, interrompendo-o. – E vai ser em espécie.

– Em espécie… – ele dá uma gargalhada. – Você é a primeira mulher que usa essa expressão para comigo.

– Para tudo tem uma primeira vez, não é?! – acrescenta ela, enquanto abre a bolsa e tira algumas cédulas correspondentes ao valor daquele encontro. Após entregar-lhe o dinheiro, ele o guarda na carteira e volta a abraçá-la, dessa vez mais forte, cheirando-a e lhe dando pequenas mordidas na orelha e no pescoço.

– Gosta disso? – Pergunta ele, sussurrando.

– Sim – responde ela meio que ofegante.

Ele leva a mão esquerda à coxa dela, subindo devagar por debaixo do vestido, enquanto sua outra mão apalpa-lhe os seios, deixando-a bastante excitada. Ainda que quisesse, ela não podia voltar atrás. Seu corpo desejava prazer, aquele prazer. Pouco depois, ele tira a bermuda. Não está usando cueca. Mordendo os lábios, ela observa aquele corpo nu sarado em sua frente.

– Deixe-me ajudá-la a tirar o vestido.

Enquanto ele o faz, ela fica imaginando a loucura daquilo tudo: estar naquele lugar, prestes a transar com um desconhecido… Em seguida, ele desbota o sutiã preto que ela está usando e a joga na cama, tirando a calcinha dela – também preta – com os dentes. A excitação toma conta do quarto.

Os dois se beijam loucamente. Ele por cima dela, aperta-lhe de tanto tesão. Em seguida, segura forte as mãos da sua cliente e chupa o seu corpo, descendo devagar… Gemidos são ecoados…

Foram aproximadamente quarenta minutos de puro êxtase. Após o sexo, ainda deitados, os dois – agora calados – observam o teto. Ele quebra o silêncio.

– E aí gata, como está se sentindo?

Ela demora alguns segundos para responder, tentando lembrar a última vez que teve uma noite de sexo tão incrível como esta.

– Estou bem. Acho que essa foi a melhor transa que já tive em toda a minha vida.

Ele dá uma risada contida, e diz:

– Vamos nos banhar.

Ele a puxa pela mão direita, e ambos seguem ao banheiro. Ali, a água morna do chuveiro cai em seus corpos suados. O sabonete de uma marca que ela não consegue distinguir vai tirando os vestígios do encontro. Uma toalha branca é a peça final a ser usada naquele momento.

Depois disso, ambos vestem as roupas. Ela se arruma diante de um espelho de proporção média localizado um pouco acima da cômoda. Por fim, ele a conduz de volta à porta, o local onde tudo começou.

– Obrigado por ter vindo – disse ele. – E se cuidá, tá?!

– Adeus – falou ela.

– Nunca diga adeus, não sabemos o dia de amanhã.

– ADEUS! – repete determinada.

Despedem-se dando um último beijo. Ao se retirar, escuta a porta fechando por trás de si. Ela desce as escadas como que apressada e sorridente, o oposto do modo que quando chegou ao local. Ao sair do prédio, chama um táxi. Já estando no veículo, observa a paisagem, com o pensamento de volta ao lugar que há poucos instantes deixou. Recorda cada palavra proferida, cada ato, cada situação… Foi uma loucura? Pode até ter sido, mas ela não está arrependida. Valeu a pena toda a tensão, se arriscar para ter uma das experiências mais incríveis que já vivenciou. Simplesmente valeu a pena.

O trajeto de volta para casa dura quase uma hora devido ao trânsito engarrafado. Ao chegar, seu esposo pergunta aos berros:

– Onde você estava? Liguei para você mais de mil vezes…

– O celular descarregou – responde ela colocando a bolsa sobre a poltrona. – E antes que você pergunte, demorei porque o trânsito está péssimo, teve um acidente na via principal e…

– Tá bom, tá bom, acabei de vê no noticiário – interrompe-a abruptamente. – Vou à casa do Gustavo buscar uns papeis que acabei esquecendo no trabalho, sorte que ele viu em cima da minha mesa e pegou. Não demoro.

– Tá bom – fala ela asperamente.

Ele pega a chave do carro, bate a porta e sai. Do alto da janela, ela o observa partir. Eles estão casados há pouco mais de seis anos, mas o relacionamento rápido esfriou. Vivem discutindo, colocando a culpa um no outro… Não há paz e harmonia no lar.

A sós, ela liga para a sua confidente de muito tempo:

– Amiga, você não vai acreditar no babado que tenho para lhe dizer: EU ACABEI DE FICAR COM UM GAROTO DE PROGRAMA…

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