Subúrbio em trevas

Danilo tinha vinte e cinco anos de idade e era morador de Quintino. Foi nascido e criado no bairro, seu apelido por lá era Deco. Descendente de nordestinos, ele vive sozinho no Rio. Seu parente mais próximo era a avó materna, já falecida. Ela deixou para ele um pequeno apartamento próximo a Faetec. Por profissão, ele é eletricista. Embora também entenda um pouco de mecânica e marcenaria. Deco seria só mais um jovem como qualquer outro, desses que sobrevivem diariamente a depressão carioca se não houvesse uma pequena distinção: ele desistiu. Sim, Danilo Pereira Costa desistiu de tudo. Da vida, dos amigos, dos estudos, do trabalho, da religião e até do sexo.

Apesar de ter aparentado alguns sintomas anteriormente, o fenômeno só começou a incorporar de fato pouco após o falecimento de sua avó. Ele teve bons momentos na vida: uma namorada doce, um emprego no Exército, duas motos na garagem, a faculdade de física e viagens que realizava com uma certa constância, todavia foi perdendo tudo aos poucos, computando queda atrás de queda, derrota atrás de derrota. E por mais irônico que possa parecer, quando ele sentava para refletir e conversar sobre suas perdas, conseguia ainda manter, de forma quase mágica, o sorriso no rosto. Mesmo com tudo caindo ao redor. Adotara desde cedo a filosofia do “quanto mais a vida te derrubar, mais motivos você terá para se levantar e tentar de novo“. E ele tentou. Nossa! Deus sabe o quanto ele tentou, porém nada dava certo. Foi dispensado do quartel, a namorada o abandonou, as convocações dos concursos que prestara não saíram, teve que processar a última empresa que trabalhou, pois sofreu um acidente que fodeu suas articulações e precisou, por fim, vender suas duas motos. Ainda assim continuou sorrindo, continuou tentando até perceber que haviam se passado quatro anos nessa amargura. O autor dessa filosofia se esqueceu de dizer que quanto mais você tenta, mais o sucesso perde o sabor e mais desacostumado se fica com a vitória. É como o sujeito que se adaptou a dormir numa cama de pedra e tem insônias quando se deita no colchão de penas, tal como o Conde de Monte Cristo. Danilo ficou assim, uma lástima.

Essa rotina de perdas arrastou Deco para milhares de vícios. O cigarro e a bebida estavam cada vez mais presentes todavia, meio que por acaso, começou a nascer também, dentro dele, um forte interesse por obras de realidade fantástica, religião e ocultismo. Comprou uma versão mal traduzida de São Cipriano com um vendedor de rua que costumava lhe passar livros usados e, após um longo porre de domingo, concluiu que sua vida poderia melhorar se ele realizasse um bom ritual de magia. “Só que pra fazer uma treta dessas, preciso conhecer melhor o assunto, preciso dominar a bruxaria”, concluiu. Três semanas após a compra de São Cipriano, encontrou-se com o vendedor numa quarta-feira qualquer, próximo ao dia das crianças e pediu que ele arrumasse todos os livros possíveis sobre o Oculto. Para isso, deu ao cara um adiantamento de trezentos reais. Mais duas semanas se passaram e lá estava Deco novamente, indo em direção a passarela da estação de trem para encontrar com Maguinho, o tal vendedor. Maguinho era um chileno estranhamente alto que usava brincos de penas e cheirava a inseticida. Costumava forrar um decido púrpura no chão da passarela diariamente. Ali, ele distribuía os livros e vendia apenas em dinheiro. Fazia um lucro razoável com os estudantes da Faetec, mas nunca lucrou tanto quanto com Deco. Nesse dia, o relógio marcava onze e cinquenta da manhã. Deco subiu as escadas para buscar o que pediu. Maguinho o viu e sorriu de longe;

— Fala meu camarada!

— Opa! O que conseguiu?

— Tudo que o meu fornecedor tinha. Tá aí — ele apontou para duas sacolas grandes (dessas de usar em feira) que estavam no chão.

— Caralho, tudo isso?

— Pois é, tem leitura ai para os próximos dez anos! — respondeu Maguinho.

— Valeu, meu parceiro. Vou dar uma olhada quando chegar em casa — disse. Depois pegou as bolsas e sumiu dali.

Ao entrar no apartamento, Deco devorou os livros pelos seis meses seguintes, voltando a comprar mais deles posteriormente e se ensopando cada vez mais da temática. Destarte, permaneceu dessa maneira por mais vagarosos três anos. Leu tudo sobre Aleister Crowley, Madalena Blavatsky, Hermes Trimegistro, Frithjof Schuon, Eliphas Levi, Annie Besant, Anton LaVey dentre outros autores. Fora obras diversas de Goetia, Magia Negra, Magia Branca, Introdução a Cabala, Budismo, Maçonaria, Hinduísmo, Voodoo, Wicca, paganismo antigo, neopaganismo, xintoísmo, espiritismo, islamismo, bruxaria oriental, etc. Maguinho não disponibilizava quase nada desse assunto no seu portfólio de rua, contudo como possuía bons contatos no universo das obras contrabandeadas e Deco não se importava com os valores pedidos, ele trazia os títulos desses gêneros de muito longe, especificamente para seu cliente. Durante todo esse período, Deco não teve emprego fixo. Às vezes pegava um ou outro serviço de elétrica, tirava entre oitocentos a mil e quinhentos. Sentia-se satisfeito e não procurava mais nada até o fim do mês. Transava com uma mulher ou outra quase que trimestralmente e não fez novos amigos. Sustentou-se assim até os trinta e dois anos de idade.

Nesse intervalo, ele não tentou o tal ritual para melhorar de vida. Apenas definhou, emagreceu e ficou barbudo. No entanto um dia, de tanto ler manuais, grimórios, manuscritos e registros sombrios, Deco chegou à conclusão de que havia entendido o segredo e o sentido da vida. Achou que havia compreendido todas as cartas desse jogo universal e decidiu escrever sua própria obra. Como detestava computadores e já havia se desfeito de todas as redes sociais, optou por traçar suas notas a punho. Dizia a si mesmo que, quem fosse capaz de ler o que viria a ser escrito, dominaria todas as coisas; dinheiro, mulheres, bens, títulos, acordos políticos… Tudo estaria ao alcance. Seguindo essa vibe, ele entrou na papelaria mais próxima que encontrou, comprou pacotes e mais pacotes de folhas A4 e deu início ao empreendimento. O mês virou, era Julho. Deco almoçava galeto com maionese numa pensão do bairro e quando estava pra terminar, recebeu uma ligação de Maguinho.

— Diga lá.

— Meu parceiro, tenho uma novidade pra ti.

— De qual tipo?

— Cara, não sei bem. É um livro novo, quer dizer, livro não! Na verdade, é um diário. Dizem que é amaldiçoado. Veio direto do Paraguai, o cara quer novecentas Dilmas nele, cabron.

— O QUÊ! Isso é muito dinheiro.

— Eu sei, eu sei. Mas ouvi relatos de que se trata do diário de um grande bruxo, dizem que o hombre viveu por mais de cento e cinquenta anos e que a magia dele colocou três presidentes bolivianos no poder, saca? Ah… E esse é outro detalhe: o livro está em espanhol, mas acho que não é problema pra ti.

— Não é. Mas… porra… esse preço! Sei lá, tu não consegues um descontinho?

— Já consegui, brother. Ele custava mil e trezentos em conversão direta de la moeda. Desenrolei bem, só faltou dizer que faria una chupeta no cara, entende?

— E por que não? Poderia ter proposto o boquete, poxa.

— Não fode, Deco.

— Droga, droga! Meu saco cabeludo! Tá! Tá! Vou ter que arrumar esse dinheiro. Preciso pensar.

— Quê? A ligação falhou. Pensar sobre o quê? Tu vai querer ou não? O fornecedor tem outra pessoa na jogada, mas ele priorizou você porque você tá conosco há mais tempo.

— Vou querer, claro que vou querer. Tu ainda pergunta? Bom… Quando ele chega?

— Quinta! Tô indo buscar amanhã — disse Maguinho. Era uma Terça-feira.

— Ok. Vou arrumar a grana, obrigado irmão.

— Adios!

Deco guardou o celular, pagou a conta do almoço e saiu do restaurante. Caminhou em direção ao apartamento. Estava pensativo, preocupado. Cruzou a avenida principal com pressa e ligou para alguns conhecidos oferecendo seus serviços de reparo e instalação, porém ninguém estava precisando. Leu e releu sua agenda inteira, enviou mensagens diversas, mas puta merda; a elétrica no Rio nunca esteve tão perfeita. O dia estava abafado, um calor sufocante que ardia a bunda. Ele subiu as escadas do prédio e entrou no número 206, seu humilde lar. Algumas coisas haviam mudado por ali nos últimos anos. A cozinha, por exemplo, foi dividida do restante dos cômodos por uma linha de sal no chão. Sal, misturado com alguns outros supostos ingredientes químicos… “mágicos”, por assim dizer. A ideia era ter um espaço neutro, sem a entrada inesperada de qualquer tipo de entidade. Deco escolheu a cozinha para esse fim, pois era o local preferido da falecida avó. Havia um tipo especial de energia ali, uma certa paz que ele tinha receio de contaminar com outras coisas que possivelmente o acompanhassem da rua. No quarto, desenhara um pentagrama no chão e pôs velas nas extremidades. Outros símbolos de proteção estavam nas portas e janelas, mas tudo era bem teórico para ele. Não havia ainda colocado em prática nenhum ritual desde que comprou seu primeiro livro. Achava que deveria acumular todos os seus desejos e dispará-los num momento especial, um momento de real necessidade.

Suas folhas A4 já haviam acabado, ele aprendeu muito nesse ínterim e escreveu o suficiente. Não se considerava ainda um mago, pois realmente faltava pôr a mão na obra e, pra variar, algo naquela tarde de terça tentava convencê-lo de que o momento havia chegado. Ele tomou uma boa e suave ducha, saiu do box e andou até a sala. Olhou na gaveta, tinha, ainda, cento e oitenta reais para sobreviver. Era pouco, muito pouco. Agora precisava ganhar não só o dinheiro do livro, como também o da comida até o fim do mês. Fumou dois maços de cigarros sem perceber e após muito pensar e muito se questionar, decidiu finalmente apelar para a magia com intuito de conseguir os novecentos reais.

Tirou uma lata de cerveja da geladeira e terminou em três goles. Quando deu por si, já havia tomado dois engradados fechados. Precisava do dinheiro, precisava daquele diário. Sentou-se no sofá, ligou a TV e continuou bebendo. Dentro de pouco tempo, cochilou sem notar. As horas se passaram e ele acordou no fim do crepúsculo. Despertou num pulo. Ainda estava muito quente e seu suor ficou marcado na almofada. A barriga fazia um barulho inconfundível, algo na maionese do almoço não estava muito fresco, o gosto não negava, mas ele insistiu e quis comer. A consequência disso tentava correr pelas pernas. Levantou desatinado, desligou a TV e se arrastou até o banheiro. Fez o que tinha pra fazer e precisou de três descargas para dar conta da parada. Ao terminar, tomou uma nova ducha, vestiu roupas limpas e entrou no quarto. Ainda se perguntava como poderia arranjar aquela grana. Andou para um lado e para o outro feito pinto tonto até tropeçar em uma das velas do pentagrama, que estava desenhado no chão. Bateu-lhe uma crise de soluços e mesmo sofrendo com ela, Deco ajoelhou e colocou a vela no lugar. Enquanto estava de joelhos, mirou o pentagrama com frieza, pensou bastante, coçou o queixo. “Pois bem, acho que li algo sobre isso. Ah, vou fazer! Talvez funcione!”, cochichou. Correu até a sala e revirou a estante. O soluço continuava incomodando. “Tá aqui em algum lugar, eu sei que tá”, repetia. Até sair um grito enorme, único, “ACHEI! UFA!”. Soprou a poeira da capa do livro e voltou ao quarto com ele debaixo do braço. “Vamos lá, vamos lá… Yeah! Página vinte e… Não. Trinta e dois… Não, setenta e nove. Isso! Sete-nove. É isso! Vou conseguir esse dinheiro!”. Fechou as cortinas do quarto, tirou o isqueiro do bolso, acendeu as velas e um incenso. Isto posto, ajoelhou-se dentro do pentagrama e começou a ler o ritual.

Recitou palavras em aramaico, fez sinais no ar com os dedos, respirou bem fundo o cheiro forte do incenso e repetiu uma série de dados impronunciáveis. Todo o lance durou cerca de vinte minutos. Não sentiu nada de diferente, nada de especial, além do fim imediato do soluço. Concluiu que algo estava errado em si, ou no ritual, ou no livro, ou nos dois. Levantou, guardou o exemplar novamente na sala, deitou na cama e dormiu. Despertou no raiar da quarta-feira, graças ao celular vibrando no bolso. Achou que era o despertador e estava enganado. Era a Iara, sua amante barra amiga de infância barra atual advogada. Deco deu o bocejo mais longo da história e depois atendeu.

— Quê?

— Bom dia, princeso!

— É? Bom? Olha, mais ou menos. Pra ser sincero, nem notei que já era dia.

— Mas é. E eu ainda não ouvi meu “Bom dia” de volta.

— O que você quer, Iara?

— Grosso!

— Eu sei que sou grosso. Você adora, lembra? Embora também diga que machuca a garganta.

— Vá se foder, seu babaca escroto! — Iara encerrou a ligação.

Ai ele tomou impulso e levantou, foi até a cozinha e colocou água no fogo. Quase não havia pó de café, contudo ao menos uma xícara nasceria dali com sucesso. Enquanto mexia nas coisas, um copo caiu no chão e quebrou em mil pedacinhos. Deco se agachou para catá-los, xingava Deus e o mundo por um erro que foi próprio. Nesse ínterim, o celular voltou a vibrar. Ele atendeu e, como estava com as mãos ocupadas, colocou o smartphone entre a orelha e o ombro. Era Iara novamente.

— Oi meu amor — disse Deco em em tom cínico.

— Vagabundo, desgraçado, idiota!

— Opa, calma! Desculpa. Só estava brincando. Realmente estava brincando. Não ando muito bem, querida. Perdoe-me por mais cedo.

— Querida não, doutora. Vamos formalizar isso.

— Ora, irá bancar a profissional agora? Ok. DOUTORA!

— Foda-se.

— O que você queria? Só saber se estou bem?

— É! É o que as pessoas fazem quando se importam.

— Céus. Lá vem…

— Não, não vem nada. Não vou falar mais nada além do necessário.

— Ok.

— É Julho, Danilo. Mês do seu aniversário.

— Nem me lembre disso, ai PORRA! — um dos cacos quebrou no meio e cortou o dedo dele — Merda, merda!

— O que houve? — Iara realmente se importava.

— Não foi nada. Um copo caiu aqui, estou juntando. Mas enfim, é o meu mês sim. O que há de especial? Pretende fazer uma festa surpresa pro seu amiguinho aqui?

— Não, nem de longe. Ouça: você anda acompanhando as notícias?

— Não. Deveria? Fiquei famoso? Ganharei um prêmio?

— Imbecil. Vá se atualizar, Deco! Veja bem: A Caixa Econômica Federal está liberando o fundo de garantia pelo mês de aniversário. Você deveria sacar. Ou não tá precisando de dinheiro?

— Puta merda. Só pode ser brincadeira! — Gritou.

— O que? Não. Não é. Achei que soubesse.

— Quanto eu tenho lá? Quanto eu tenho disponível pro saque?

— Ah, agora você decidiu me tratar bem, viadinho?

— Poxa, meu bebê. Consulta aí pra mim vai, nunca te pedi nada.

— Você sempre me pediu tudo, Deco. Tá. Eu vou ver aqui e já te retorno.

— Obrigado sua LINDA!

Iara ouviu, mas desligou sem dizer nada. A essa altura Deco já tinha catado todos os cacos e jogado no lixo. Ligou a TV novamente, preparou o café e bebeu enquanto comia seu saco de pães de mel. Iara ligou mais ou menos depois de quarenta minutos.

— Diga, meu nenê.

— Novecentos e cinquenta.

— Oi? Quê!?

— É o SEU valor disponível pro saque. Novecentos e cinquenta reais e vinte e dois centavos. Tem uma agência da Caixa aí perto do seu apê, vai lá pegar pô.

— Ual. Obrigado! Passa aqui em casa hoje à noite. Vamos tomar um vinho para comemorar. Tô com saudades de você.

— Mas Eu não tô com saudades. Tenho que trabalhar Deco, pessoas normais trabalham.

— E quem disse que eu também não trabalho?

— Sei, sei.

— Você tem alguma novidade sobre o caso do meu acidente? — Questionou Deco. Iara que advogava o caso.

— Sim e não. Recebi um e-mail dos advogados da sua antiga empresa, talvez eu ligue para eles mais tarde. Deve ser uma proposta de acordo. Vai ver o valor te agrade.

— Ok, meu chuchu. Faça isso. Mas e quanto a sua visita aqui mais tarde, hein?

— Cala a boca, Danilo. Tchau! — Ela finalizou a chamada.

Deco levantou do sofá dançando, dando pulinhos e cantando. Novecentos reais? Desse jeito? Caídos do céu? Era muita coincidência, só poderia ter sido fruto do… Bom, ele não queria pensar nisso agora. Foi até o banheiro escovar os dentes, colocar uma fita do dedo ferido e lavar o rosto, escolheu seu melhor tênis e saiu do apartamento em direção ao banco mais próximo. Além da grana repentina, não aconteceu mais nada de especial nesse dia. Ele reclamou da maionese estragada com a dona Rose, proprietária da pensão. Para compensá-lo, ela lhe deu mais cervejas. Seguidamente, ele foi no mercado, comprou mais café, uma garrafa de vinho caro, mais pães de mel, um novo pacote de folhas A4 e passou o restante da tarde em casa escrevendo suas notas. Quando estava se preparando para dormir, por volta das 23hrs, chegou uma mensagem de Maguinho. “Antes de ir para a passarela, passarei na sua casa às oito, tá? E deixarei o livro contigo. Tá com o money? Conseguiu las verdinhas?”, escreveu. “Tô sim!”, respondeu Deco. Que veio a cair no sono nos minutos seguintes. As sete ele já estava de pé, tomando seu café da manhã e aguardando Maguinho chegar. O vendedor apareceu na hora marcada. Ele nunca chamava no portão, ligava para o celular de Deco e desligava antes mesmo do seu velho cliente atender. Naquela manhã a tática foi essa mesma. Deco desceu até a rua para cumprimentá-lo.

— Fala meu parceiro, bom dia — disse o chileno.

— E aí, meu irmão. Como estamos?

— Tá na mão o combinado! — Maguinho tirou da bolsa um livro de capa escura, trancado a cadeado — Segura! Ah, fique também com as chaves — concluiu.

— Valeu. Você é o melhor vendedor dessa cidade derrotada, meu querido. Agora tome: Sete, oito, novecentos… — dizia Deco, contando as notas.

Depois disso, eles bateram um rápido papo sobre o cotidiano e Deco subiu. Voltou a fechar as cortinas da casa, destrancou o livro, abriu uma cerveja, deu uma boa golada e começou a leitura. Era um extenso diário de trabalho de um bruxo paraguaio que se isolou na selva boliviana por trinta anos. Partes do livro foram escritas com sangue humano e quase todo conhecimento de Oculto do autor era baseado em conceitos, ervas e meditações que partiam do xamanismo indígena. Haviam rituais simples, sobre como curar alergias, acabar com as dores musculares e encontrar objetos perdidos, tal como haviam também rituais complexos, que iam desde o prolongamento da vida como também a supostos contatos com o mundo dos mortos.

Naquele quinta Deco sequer almoçou. Leu e fez anotações o dia inteiro. A energia do lugar ficou pesada, a chuva chegou no cair da noite. Por volta das 19hrs, ele finalmente sentiu fome e resolveu comprar um lanche. Ligou para uma pizzaria do bairro e pediu uma média, metade frango e metade americana. Quinze minutos depois, a campainha tocou. Deco levantou para atender e nos primeiros passos sentiu uma leve tontura. Era o resultado das cervejas no estômago vazio. Abriu a porta e tomou um susto. Um doentio e deslumbrante susto.

— Oi. Boa noite. Tudo bem?

— Boa noite — Ele retrucou.

Não era o entregador, ao menos não o de sempre. Era uma loira enorme, deveria ter um e oitenta e nove de altura. Seu cabelo passava da bunda e seus olhos eram de um azul tão forte que se tornavam quase negros. Estava com um vestido azul, pano finíssimo, pra lá de seda. Seu perfume era doce, brincos de pérolas, bolsa de couro, dentes de uma atriz americana, pulseira de ouro. Parecia que tinha saltado de um avião e pousado ali, nem de longe uma mulher como àquela fazia parte da classe social do bairro, ou do município como um todo. Deco travou, ficou completamente mudo. O bafo da cevada fumaçava na boca e ele se sentiu envergonhado.

— Acho que isso é teu, não? — ela perguntou. Trazia consigo a caixa da pizza.
— Eita. É algum tipo de pegadinha? — Indagou Deco, olhando para os lados, sem encontrar mais ninguém no corredor.

— Negativo, não é — ela deu uma risada pura, sutil — tu não vai me convidar pra entrar?
Ele recuou e se entreteve assim que percebeu o forte sotaque da mulher. Lembrava um pouco do catarinense, tinha uma pitada de alemão também.

— Por favor! Entre — replicou — só não repara a bagunça! Eu não esperava… Não esperava alguém como… Enfim.

— Sem problemas. Acho que entendi. Obrigada.

A mulher entrou, caminhou até a sala, deixou a pizza em cima de uma mesinha e sentou no sofá. Cruzou as pernas e pôs a bolsa de couro no colo. Com os dedos, transpassou o cabelo sobre as orelhas e reparou todo o ambiente de ponta a ponta, sobretudo a estante de Deco que estava abarrotada de livros. Deco reabriu as cortinas e as janelas, ventava lá fora e logo o local ficou arejado. Em seguida, foi até a cozinha e voltou com duas taças e a garrafa do vinho caro, sentou na poltrona de frente para a moça e serviu o vinho com moderação. Sequer perguntou o que ela queria ou não beber. Simplesmente pegou uma das taças e a deu. Ela aceitou de imediato, sem dar um pio. Sua mão gelada tocou na taça, sua pele era tão branca que era possível contar o número de veias visíveis. Era alguém pertencente a outro contexto social, de fato. Estava perceptível e isso tornou tudo ainda mais interessante.

— Está com calor? — Perguntou Deco.

— Como?

— Você está com calor? Bom, a janela está aberta, mas você não parece acostumada com o nosso clima. Se desejar, ligo o ventilador de teto.

— Ora, estou bem. Não há necessidade. Grata pela solicitude — respondeu-o.

— Acho que você não é a entregadora, certo? Embora o dono seja lunático a Pig Pizzas não te daria esse cargo, jamais!

— Não. Não sou — ela girou a taça, cheirou a bebida e ingeriu um gole. Fez aquela cara típica de degustação e voltou a fitá-lo — Meu nome é Madalena. O entregador chegou junto comigo e eu quis poupa-lo do trabalho. Disse que era uma amiga e paguei pela pizza.

— E nós somos?

— O que?

— Amigos. Somos?

— Bom. Pelo menos não ainda — ela riu.

— Estou confuso. Mas ao menos temos pizza, né? Quer um pedaço?

— Ainda não. Não vim aqui por isso.

— Então pelo que veio, Madalena? A que devo a honra de sua visita? — Deco arrancou uma fatia e começou a mastigar.

— Sou uma fã do seu trabalho, Danilo. Ou Deco, como preferir. Uma grande fã, diria.

— Meu trabalho? Eu já fiz algum reparo na sua casa ou empresa?

—  Não. Não falo desse tipo de trabalho, falo das suas anotações.

— Ué, como? Eu ainda não tenho nada publicado.

— Eu sei, entretanto não precisou ter. Assim como você, também sou apaixonada pelas artes mágicas. Faço parte da confederação nacional de bruxas.

— E há uma confederação?

— Veja: há muitas coisas entre o céu e a terra do que…

— Shakespeare! — Interrompeu Deco.

— Sim. Exato. A frase é dele.

— Bem, mas já que você está aqui, bruxa confederada, coma ao menos um pedaço de pizza comigo, fique um pouco mais à vontade. Quer ouvir música?

Madalena balançou a cabeça negativamente e roeu uma das unhas. Um breve silêncio instaurou-se.

— Obrigada. Mas eu realmente ficarei só no vinho.

Ambos beberam calados. Madalena prosseguiu;

— Vou direto ao ponto; vim até aqui pelo diário.

— Diário?

— Sim. O do mago. Esse que você comprou hoje. Quanto pagou por ele?

— Novecentos mangos. É uma história engraçada até, sabe? A forma como o dinheiro chegou até mim. Eu havia feito um ritu…

— Dez mil! — Cortou Madalena.

— Quê?

— Te pago dez mil no livro.

— Puta merda. Isso é um bom dinheiro. Olha, garota…

— Quinze.

— …
— É isso! Eu aumento para quinze. É pegar ou largar!

Deco ficou intimidado, tentava raciocinar no grau de importância que a circunstância exigia. Um pedaço de queijo estava grudado em seu dente, enquanto trabalhava a resposta de um lado, tentava limpar o molar direito do outro. Finalmente conseguiu os dois.

— Então era você? Era você a outra interessada que Maguinho comentou. Foi ele que te passou meu endereço?

Madalena se esticou até a garrafa de vinho, serviu-se de mais um pouco e completou a taça de Deco.

— Vou ser bem franca, rapaz; sou uma colecionadora e estava de olho nessa obra há três décadas. Não tenho a mínima ideia de quem é Maguinho, meus guias me indicaram o caminho até a sua casa e eis me aqui.

— Guias?

— Pois sim. Meus guias espirituais. Eu comando três chefes de quinze falanges. Algum problema com isso?

Deco engoliu a seco, o pedaço de queijo parou na sua garganta. Uma gota de suor escorreu na sua testa e travou bem entre as sobrancelhas. Aquela figura incomum ali poderia ser muito mais poderosa do que ele imaginava, todo cuidado era pouco. Ele passou a observá-la – o modo como a entonação dela variava quando falava sério, as disfarçadas rugas sobre a maquiagem, os gestos, os anéis estranhos, a fixação do olhar, as tatuagens sem aparente significado. Meditou sobre a afirmação “três décadas” e então caiu a ficha. Apesar de aparentar seus vinte e nove, a loira era bem mais velha do que imaginara antes. Um vento frio soprou da rua levantando a cortina e a luz do poste público atingiu seu rosto, ofuscando parte da visão. Estava desconfortável demais e resolveu acabar com aquilo.

— Madalena, obrigado pela visita. Mas não está à venda.

— Como é? Entenda Danilo, eu…
— Olha, eu já disse que…

— DANILO! — Ela interrompeu.

— Cara. Eu não vou vender! Ponto final. Sai da minha casa!

Madalena abriu a bolsa de couro.

— Façamos o seguinte: dobro a proposta, que tal? Trinta mil. Com essa grana dá para você sair daqui e alugar um apartamento melhor. Você corre perigo permanecendo aqui. O mundo espiritual inteiro já sabe que você invocou deuses antigos pedindo prosperidade. Foi um ritual incomum, um ritual árabe. O Brasil pertence a espíritos que são rivais daqueles que você chamou. A assinatura desse tipo de magia é muito forte, como você acha que te encontrei? Outros virão! Então pense bem: estou te dando a chance de rechear os bolsos e vazar! Com essa grana, você encontrará livros melhores que esse rascunho velho. Não seja idiota! Vamos fazer negócio.

Madalena era tão insistente quanto bela. Fazia pressão de forma suave, fina, graciosa. Seu corpo acompanhava sua fala. Ela cruzava as pernas com frequência enquanto argumentava, mostrando os detalhes da calcinha vermelha. Piscava o olho após o término de uma boa expressão. Balançava a taça… Era o tipo de mulher que deixaria qualquer homem sem carteira com apenas meia hora de papo. Deco resistia com todas as forças, principalmente porque sabia que ela era superior a ele. Ele era incomodado pela inteligência feminina, sempre foi assim. Fazia parte da sua parcela machista. Após ouvi-la com atenção, ele tão somente se levantou e caminhou até a porta. Abriu-a e apontou a saída.

— Tenha uma ótima noite, Madalena. Adeus.

Ela continuou sentada por uns quinze segundos. Então expirou com força e caminhou em direção ao corredor. Na metade do caminho parou e olhou para o lado, onde estava a estante, reparando nas obras, caixas, documentos e folhas de anotações que estavam organizados por lá.

— São meus estudos — disse Deco — também não estão à venda.
Madalena continuou calada, voltou a andar em direção a porta. Seus passos ficaram fortes, pesados, o vizinho de baixo era capaz de ouvir o estalo do salto alto. Numa dessas, quando já estava frente a Deco, desequilibrou-se e caiu de bunda no chão.

BUM! Um barulho dissonante.

— Droga! Merda! Maldito salto alto. Ai, AIII! — ela bradava.

Deco até tentou pegá-la, mas foi tudo muito rápido. Viu de relance a perna e notou que o salto do pé esquerdo havia quebrado. Ele se ajoelhou e tocou no pé de Madalena. Sua pele era fina e muito, muito pálida.

— AÍ! AI! Tá doendo demais! — Ela resmungava.
Com fleuma ele tirou o calçado e notou que o tornozelo estava inchando, ficando tão vermelho quanto tomate.

— Espera. Vou pegar uma bolsa de gelo — disse e correu até a cozinha.

Abriu a geladeira, pegou duas formas de gelo e bateu na pia com toda força. As pedras caíram e ele encheu uma sacola plástica com elas. Ao dar meia volta, assustou-se. Madalena estava lá, de pé. Apontando uma arma para ele. Deco olhou bem, era um calibre .32 prateada, sendo possível, inclusive, ver a bala brilhando na roleta.

— Olha, cuidado. Não vá fazer nenhuma besteira, mulher.

— Xiu! Caladinho! Agora, sou eu que dou as ordens aqui! — Respondeu.

Madalena transpirava em voz alta, a dor da torção aparentemente era real. Contudo, Deco reparou que o pé dela não estava mais inchado e não soube deduzir como a recuperação foi tão rápida. Reparou também que ela havia pego não só o diário negro que ele havia acabado de comprar, como também seu pacote com as folhas de anotações.

— Você poderia ter saído dessa com um bom dinheiro — Murmurou, ainda suspirando bastante, como quem acabara de vencer uma maratona — entretanto foi burro. Muito burro, garoto! Agora eu levarei o que é seu e você morrerá aqui.
— É covarde demais para fazer isso com as próprias mãos, vadia?
— Au revoir, babaca!

Deco respirou fundo e, por impulso, jogou a bolsa de gelo na direção de Madalena, correndo de imediato para o lado esquerdo da cozinha. Ela desviou da bolsa e deu o primeiro disparo. Acertou a parede atrás da pia, Deco saltou para baixo da mesa e derrubou-a fazendo de escudo. Madalena se irritou e entrou na cozinha para atirar de perto, contudo assim que fez isso, precisou cruzar a linha de sal e automaticamente seu pé voltou a doer, lançando-a novamente no chão.

— AI! MERDA, MERDA. O que foi isso? Ah!

Deco avançou em sua direção, chutou a pistola para longe e, sem demora, transferiu um belo soco na cara da loira.

— É proibido magia na minha cozinha, vagabunda. Seja lá o que você fez para conter a torção, não vai funcionar aqui!

Madalena cuspiu sangue. Seu olho esquerdo estava roxo e ela exalava ódio. Deco deu outro soco e ela desmaiou. Ele então sentou no chão e soltou todo ar de seus pulmões, quase como num berro. Recompondo-se e levantando minutos depois. Pegou seu livro e sua pasta de anotações e, quando olhou para a sala, viu três homens de pé. Eram altos, quase encostavam no teto. Eles usavam terno, eram carecas e tinham os caninos tão longos que rasgavam a lateral da boca. Deco gelou. Agachou-se com calma, sem piscar e pegou a arma, apontando-a para o trio em seguida.

— Não funcionará na gente — eles disseram em uníssono. Foi aí que a ficha caiu.

— Então são vocês os tais “guias” que mostraram para ela onde ficava a minha casa. Demônios desgraçados! Vou acabar com vocês!

Então o trio sobrenatural deu três passos à frente, Deco recuou. Porém logo, percebeu que estava protegido ali – graças a linha de sal – e gargalhou.

— Vocês não podem passar da minha linha de proteção, estou seguro aqui e tenho Madalena de refém.
Os seres ficaram onde estavam e passaram a ouvir Deco.
— Vamos negociar — ele disse.
— O que tu queres? — Perguntou o trio, novamente em uníssono. Era uma voz grave, pesada, cheia de variantes, como a de uma multidão de homens.

— Eu prometo que pouparei a vida dela se vocês jurarem que irão me servir.

— JAMAIS! Você não é digno! Não tem o sangue puro!

Deco então apontou a .32 pra cabeça de Madalena e destravou.

— Não é tão simples — disseram-lhe — existe um processo para se ter guias espirituais. Etapas que não podem ser quebradas. Além disso, tu só é capaz de nos ver pela clarividência que inocentemente despertou no ritual de mais cedo. É um efeito temporário do mantra que vós usastes. Logo passará.

— Eu tô pouco me fodendo, campeões. Se virem ou teremos cérebro para todos os lados dessa cozinha! Um cérebro maravilhoso, atrelado a milhares de fios loiros. Ou quem sabe eu devo dar um tiro bem no meio dessa boceta de rica? Aposto que os cremes usados nela compram o meu apartamento inteirinho! Vamos logo capetada! Eu não tenho a noite toda.

— Inferno! Amaldiçoado sejas tua alma!

— Opa, peguem leve!

— Combinado então, Danilo Pereira Costa. Nós lhe juramos fidelidade e servidão eterna!

— Perfeito!

— Mas para isso, tu precisas pegar o anel que está no dedo de Madalena, pois ele é o símbolo do nosso pacto.

Deco olhou para trás, reparou nas mãos da bruxa e viu que ela tinha pelo menos oito anéis.

— Qual deles, caralho? — Indagou aos monstros.

— Aquele que é feito de osso.

— Eita, porra.

— Saibas que é humano. Osso humano! Foi forjado com o crânio de um de seus filhos.

— Como é? Jesus Cristo! Que merda é essa?

— Ah! Seu arrombado NÃO OUSE repetir esse nome!

— O que? Por que? Ora, ora. Achamos um ponto fraco aqui, não? Combinado, seja lá o que for, não direi o nome dele.

Deco se curvou e tocou em Madalena, apontou a arma com uma das mãos ao mesmo tempo em que tentava, com a outra, arrancar-lhe o anel. Estava quase lá, vagarosamente. Quando o objeto já passava da unha, Madalena abriu os olhos. Num relance, Deco disparou. A arma, contudo, falhou e Madalena se atracou com ele. Ambos rolaram pelo chão da cozinha, ela arranhava sem parar o rosto dele e ele a socava como podia; costela, peito, costas… Até que Deco conseguiu acertar um chute que a jogou contra o armário. A rua toda ouviu aquela porrada. O balanço do móvel derrubou pratos, xícaras e o faqueiro inteiro no colo da bruxa. Ela pegou uma das facas e, durante o intervalo em que ele se aproximava para tentar uma imobilização, enfiou tudo no peito do rapaz, até o cabo encostar na blusa. Não bastando, girou a faca. Ouviu-se um estalo. Deco se calou, mordeu os lábios e bufou.

Ela então o jogou para o lado, levantou mancando, pegou o diário, o anel, as anotações e a arma. Saiu do apartamento e desceu as escadas se apoiando na parede. Na calçada, uma limusine esperava por ela. Madalena entrou e o motorista deu partida. Iara havia acabado de dobrar a esquina, estava arrumada e trazia consigo um pacote de petiscos. Quando olhou para o prédio, viu a bruxa entrando no carro. Pela maneira como a mulher saiu, descabelada, arranhada e mancando, deduziu que ela e Danilo haviam acabado de transar. “Então seu passatempo agora é comer riquinhas? É assim que você se mantém? Porco safado”, cochichou. Dando meia volta e voltando pra casa dali mesmo.

— Adeus Danilo, algo me diz que seus escritos serão úteis para o nosso projeto global — disse Madalena.

A limusine saiu em disparada. Horas se passaram e o dia amanheceu. Deco ainda estava na cozinha, morto há sete horas e meia. No quarto, seu celular tocou três vezes até cair na caixa postal. Quando caiu, Iara deixou um recado: “Deco, seu pilantra. Bom dia. Gostaria de dizer que não pude ir até ai ontem porque… tive que trabalhar até tarde. Acho que você se divertiu, já que nem me ligou para saber, então ok. Outra coisa: falei com os advogados da sua antiga empresa ontem a tarde. Eles assumiram a causa recentemente e me sinalizaram com um valor de acordo. A empresa está te oferecendo cinquenta e dois mil pelos danos. Retorne a ligação assim que possível, tá jóia? Beijos”.

Era sexta-feira e o prato do dia na pensão foi maionese novamente, mas dessa vez dona Rose não errou e a comida estava fresca.

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