Eu juro que perderei alguns dias buscando entender como a calcinha dela foi parar no ventilador de teto. Ou como minha bermuda jeans terminou rasgada. Ou como chegamos até a minha cama se eu perdi as chaves fazendo uma dancinha ridícula na chuva. Bem, ainda não consigo processar as melhores partes. Acordei sem uma parcela da minha memória, mas com um belo sorriso no rosto. No universo masculino, isso já diz tudo. Preciso ajustar a coluna, porém ela está cochilando sobre a minha barriga. Aprecio com todo carinho do mundo; jamais acordaria um anjo desses. Permaneço como estou por horas, assisto o clarear do dia transpassar a janela, estalo o pescoço, coço os olhos. Tem uma marca de batom no meu calcanhar, meu peito está arranhado e meu bafo cheira a hidratante de pele. Estou confuso, estou feliz. Uma lástima, um paraíso.

Só consigo lembrar do quanto estava amedrontado e ao mesmo tempo confiante. Tudo começou oito horas antes: uma noite qualquer, uma festa qualquer, com amigos bêbados e piadas repetidas. Ela era um dos poucos rostos desconhecidos de lá. Linda, sensual, plena, perfeita. Ela brincava, ela rebolava, ela dava erudição com uma mão e luxúria com a outra. A verdadeira reencarnação de Hedonê¹. Desejei de cara! Queria ir com tudo que tinha, mais o meu “tudo” era muito pouco pro nível dela. Era visível, inegável: se ela atingisse o próprio ápice, se ela desse tudo de si, seria areia demais para o meu caminhão. Quatro caras tentaram, oito foram dispensados. Eu fui o nono a se arriscar. Não tinha nada a perder, nove é o meu número da sorte e que se foda o resto.

Covardia? Receio? Pudor? Esqueça! São coisas de principiantes, de adolescentes no primeiro baile. A tequila rapidamente adormeceu minha insegurança, agi naturalmente. Era o nono cara! Que com nove minutos de conversa e após o nono drinque, ansiava pelo instante em que devoraríamos um ao outro. Precisava acontecer, estava entre as linhas de Verdante², cravado no destino. Não eram só os números e o álcool falando mais alto. Eu podia sentir o embolar das nossas frequências soprando a lenha do desejo, transformando o tesão em brasa.

Bendito sejam os deuses dos encontros inesperados. Ainda não dá para acreditar que tudo deu certo. Noite mágica, fato que demorará alguns anos até ser convertido totalmente em lembrança. Ela geme baixinho, deita ao meu lado e, ainda sonolenta, beija meu rosto. Somos jovens, inexperientes, mentirosos, sonhadores e loucos para desvendar o universo no corpo do outro. No fim, não importa o que dizemos e fazemos para chegar até aqui. Os meios não eliminam a magnitude do que foi o fim/começo/pedaço da eternidade. Um corpo nu sempre diz a verdade. Essa noite precisará ser narrada com todas as sutilezas e sem dúvidas ela fará isso, tem conteúdo pra isso. Na minha humilde narrativa, repleta de sensações e breves contatos visuais, darei créditos ao inesquecível toque fervente dos lábios, ao olhar hipnotizante, ao emaranhado dos cachos no meu corpo, particularidades que ficarão marcadas até o fim, como parte da melhor noite de toda minha precoce vida.

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