andando descalça no piso frio do meu peito, tiro as roupas, estico-me em frente ao espelho. danço achando que tenho jeito, viro pros lados, estremeço, finjo que não existe mais nada. questiono-me quem sou mesmo que viva apenas o instante, dói não saber dizer nada… se sou pedaços do agora ou do passado, não entendo os pedaços que perdi no piso frio do meu peito. não dá pra achar culpado, tudo está aqui emaranhado e agarrado ao meu cabelo, a verdade intrínseca de ser eu, com medo de não ser mais nada.coloco um samba bem alto, rebolo pros lados, sambo torta, ajeito o cabelo e espio os cantos. não há nada quieto dentro de mim, quando se silencia muito acho que tem algo de errado e é aí que vejo verdade, sabe? adoro os cantos, giros e sussurros que minha mente dá, está sempre em parceria comigo, me olha e avisa o que posso fazer de certo ou errado. claro que não sigo seus conselhos sempre, a relação aqui é estreita, tanto comigo quanto com tudo que me rodeia, o piso frio de meu peito começa a se aquecer, os passos e giros e tudo o deixaram assim. agora entendo.

 

Arte: Jean-Pierre Cassigneul, La toilette, 1984.

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