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Disse certa vez Chico Buarque: “Nunca somos, sempre estamos“. Se a afirmação dele for mesmo verdadeira, então mais “estamos” do que “somos” no decorrer de todas as fases da vida. Isso deveria surgir como um selo de validade fiscal para quem se define como solitário. Pena que a solidão se divide em camadas, a mais fraca delas está próxima a tristeza, já a mais forte anda de mãos dadas com a depressão. A tristeza é um estado sentimental em sua definição etimológica, foi dessa camada mais fraca que Buarque preencheu as vestes. E como já disse; a mais forte, porém, está ligada a depressão. Ou seja: algo que se vive, se sente, não sendo apenas uma tempestade passageira. Não apenas algo que possa ser mudado com algumas risadas, balões de festas e purpurinas. A depressão não é morta com o excesso de afazeres, se isso fosse possível, psicólogos recomendariam faxinas e lavagens de louça aos seus pacientes, ao invés de tarjas e mais tarjas pretas.

Existe uma afirmação interessante do filósofo Dostoiévski no livro “Uma criatura Dócil”, descreveu ele: “Sou mestre na arte de falar em silêncio. Toda a minha vida falei calando-me e vivi em mim mesmo tragédias inteiras sem pronunciar uma palavra…“. De todas as máximas romancistas existentes, na minha humilde opinião, não há nada que aborde a depressão com tanta maestria quanto as palavras do sábio russo. Isso porque o depressivo (a) não negará a presença dos mesmos sorrisos, balões de festas e purpurinas, ele desfruta de tudo, toca em tudo, mas não sente nada (ou muito pouco). Com todo respeito ao Chico, o ponto de vista de quem simplesmente convive com o mal, ou apenas ouviu falar dele, é sempre mais fraco que a descrição daquele que foi obrigado (pelo destino) a cavalgar sobre ele todos os dias.

O enfoque de quem sente é diferente daquele que apenas está. O último é semelhante ao homem que vai ao médico diariamente, pois não consegue dormir com fortes dores na perna. Já o primeiro é semelhante ao homem que sente forte dores na perna, mas desiste de ir ao médico quando descobre que a mesma não dói ao dormir de ladinho. Muitas pessoas dizem que a maior tolice do ser humano é se conformar com o desfortúnio ao invés de procurar soluciona-lo. Entretanto elas se esquecem que o maior de todos os pecados é exatamente fazer parte da humanidade, de uma espécie fadada ao engano e ao erro. Tomamos como exemplo o capitalismo que de longe é a coisa mais perfeita que existe, todavia de todas as imperfeições, ele é o único que realmente se mostrou funcional. Ainda não somos capazes de criar nada superior ao capitalismo, muito menos de criar um tipo de sistema considerado perfeito.

A razão pela qual não somos capazes é justamente por sermos imperfeitos – não temos a mínima ideia do que pode ser a perfeição, sabemos satisfazer, mas não perfeccionar. Buscamos dormir de lado, ao invés de procurar ajuda médica, buscamos nos ocupar com tarefas caseiras a fim de apagar o vazio existencial, ao invés de procurar ajuda psicológica.

A humanidade é uma raça fadada a angustia e desolação. “Sou” um imperfeito, “estou” reconhecendo isso. A primeira condição sempre será imutável, aceito. Contudo admitir a segunda é e sempre será um ato de coragem, pois num mundo de covardes é bem mais fácil viver encobrindo os fatos. Se negar a atuação é ser depressivo, então eis me aqui, disposto as pílulas…

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