cair pra cima

um pardal toma banho numa poça d’água. eu espero o ônibus e penso “queria ser feito aquele pássaro e não ter medo de alçar voos, me molhar nas poças d’água que encontro pelo caminho”. da última vez que tentei alçar voo bati em algo e caí. acho que é o medo de bater que me impede de tentar de novo. não importa. pessoas inspiram pessoas, mas os pássaros… ah, os pássaros! aquele banho na poça d’água, aquele voo meio desajeitado que ganhou leveza e altura e beleza… acho que não tenho mais medo de bater, de cair pra cima.

6.

Eu já disse que me sinto sem forças? Os dias não têm sido gentis. Todo dia uma facada no peito. De pessoas diferentes. Situações diferentes. Até eu mesma tenho cravado o punhal em mim. Todas as dores do mundo fazem morada em mim. Abrigo as dores muito bem. Corroo-me muito facilmente.

Comprei um livro ontem. Devorei-o de imediato. Tamanha era a minha fome de ler algo que me desse algum ânimo. Não ânimo desses pra ficar feliz, rodopiar; mas ânimo para apesar de tudo continuar. Quintana disse “O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar. / Quem a encontra / Salva-se a si mesmo…”. Por isso, hoje eu continuo. Remando em mares profundos e pegando as garrafas jogadas ao mar, para assim salvar o que ainda resta de mim.

Afogamento

Sempre que estou nadando eu sei que irei me afogar. A água gelada conversa comigo. Ela está desesperada para ter o meu corpo novamente submerso. Vou me sucumbindo até o fundo, e quando eu estou lá em baixo ela me traz até a superfície. Eu sinto a água gelada percorrer o caminho para sair de mim. Eu volto a respirar. O meu rosto gelado sente o calor do sol com graça. O meu pulmão se enche, e o oxigênio volta a correr pelo meu sangue. Meu coração volta a bater, eu coloco a mão no peito e sinto as batidas, em um suspiro estou viva graças a água gelada que me trouxe de volta a superfície, logo após me jogar para o fundo. É um ciclo. Os meus olhos já se abriram e eu vi o céu sentindo o sol aquecer o meu rosto e o rubor voltar a corar a minha pele outras vezes antes dessa.  Quando se renasce várias e várias vezes reviver e recomeçar não é nenhum ato inédito. O espetáculo perde a graça com a repetição. Estou cansada das mortes, e das vidas. A adrenalina se esgotou. Já não mais me dopo de dopamina, e as flechas embebecidas com ocitocina já não me fazem efeito. É como se eu não conseguisse mais sair do fundo da água porque existe sempre aquela maldita certeza de que tudo vai acabar.

                                                                                                                                  Afundar.

 

Subúrbio em trevas

Danilo tinha vinte e cinco anos de idade e era morador de Quintino. Foi nascido e criado no bairro, seu apelido por lá era Deco. Descendente de nordestinos, ele vive sozinho no Rio. Seu parente mais próximo era a avó materna, já falecida. Ela deixou para ele um pequeno apartamento próximo a Faetec. Por profissão, ele é eletricista. Embora também entenda um pouco de mecânica e marcenaria. Deco seria só mais um jovem como qualquer outro, desses que sobrevivem diariamente a depressão carioca se não houvesse uma pequena distinção: ele desistiu. Sim, Danilo Pereira Costa desistiu de tudo. Da vida, dos amigos, dos estudos, do trabalho, da religião e até do sexo.

Apesar de ter aparentado alguns sintomas anteriormente, o fenômeno só começou a incorporar de fato pouco após o falecimento de sua avó. Ele teve bons momentos na vida: uma namorada doce, um emprego no Exército, duas motos na garagem, a faculdade de física e viagens que realizava com uma certa constância, todavia foi perdendo tudo aos poucos, computando queda atrás de queda, derrota atrás de derrota. E por mais irônico que possa parecer, quando ele sentava para refletir e conversar sobre suas perdas, conseguia ainda manter, de forma quase mágica, o sorriso no rosto. Mesmo com tudo caindo ao redor. Adotara desde cedo a filosofia do “quanto mais a vida te derrubar, mais motivos você terá para se levantar e tentar de novo“. E ele tentou. Nossa! Deus sabe o quanto ele tentou, porém nada dava certo. Foi dispensado do quartel, a namorada o abandonou, as convocações dos concursos que prestara não saíram, teve que processar a última empresa que trabalhou, pois sofreu um acidente que fodeu suas articulações e precisou, por fim, vender suas duas motos. Ainda assim continuou sorrindo, continuou tentando até perceber que haviam se passado quatro anos nessa amargura. O autor dessa filosofia se esqueceu de dizer que quanto mais você tenta, mais o sucesso perde o sabor e mais desacostumado se fica com a vitória. É como o sujeito que se adaptou a dormir numa cama de pedra e tem insônias quando se deita no colchão de penas, tal como o Conde de Monte Cristo. Danilo ficou assim, uma lástima.
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Sem título

São 18h45. O universo inteiro parece desabar sobre mim. Eu li sua mensagem, não sei bem o que responder. Palavras e mais palavras se misturam e eu não sei quais usar. Emudecer com o passar dos anos é coisa natural, não é? A gente é meio pássaro? Emudecer com o passar do tempo é coisa natural. Faço confusão com as palavras. Às vezes penso que você não me entende.

Engraçado que a convivência com os meus avós demonstrou o contrário, eles costumavam falar muito, inclusive sozinhos. Acho que você não deve levar a sério o “emudecer com o passar dos anos é coisa natural” – se puder ignorar tudo o que eu já disse e ainda vou dizer… Eu nem sei por que escrevo. Eu digo bobagens quando não sei o que dizer. Por isso prefiro o silêncio, eu nunca sei o que dizer na maioria das situações.

Também escrevo bobagens quando não sei o que responder. Silenciar diante das perguntas  escritas é sempre mais difícil, não é? Quem tá do outro lado sempre espera uma resposta e na maioria das vezes o silêncio não é resposta para quem te escreve, seja carta, seja e-mail, seja mensagem, é mais difícil ignorar, você não acha?

De toda forma, não tenho resposta. Espero que da próxima vez que voltar a te escrever eu tenha uma resposta – eu já nem lembro mais qual era a sua pergunta, mas escreverei.

S.

Meu momento

Aqui estou em mais uma noite sem sono. Os pensamentos a mil por hora. Deitada na cama, não canso de balançar as pernas. Um sinal nítido da ansiedade que dia após dia tem consumido o meu ser.

À escuridão, me levanto. Abro de relance a janela. Está chovendo. Por fim, nada de interessante para constatar no momento. Engraçado que, outrora, a janela foi por inúmeras vezes o palco da minha inspiração para escrever textos. Infelizmente, essa rotina também me cansou.

Sento-me numa cadeira. Nada para fazer. E, como se os meus olhos buscassem uma saída dessa escuridão, me deparo com caixas de comprimido ocupando um pequeno espaço sobre a cômoda. Observo-as atentamente. “Seria a saída que você tanto deseja”, pensei comigo.

Acendo a luz e pego uma das caixas. INSÔNIA, ANSIEDADE, IRRITABILIDADE. Lembro-me que o farmacêutico recomendou tomar duas cápsulas por dia. Não seria melhor ele ter dito para tomar tudo de uma só vez? Que se d*. Eu mesma posso fazer isso.

Despejo água em um copo médio de vidro. Em seguida, coloco em mãos a primeira, a segunda… a décima cápsula. Sem pensar duas vezes, ponho-as na boca e bebo toda a água como um animal sedento no deserto. Pronto! Está consumado. Agora é só esperar a minh’alma fazer a longa jornada rumo ao desconhecido…

DE VOLTA À REALIDADE. Com lágrimas no rosto e mãos trêmulas, jogo os comprimidos no chão e atiro o copo contra a parede. Minúsculos pedaços de vidro dominam o recinto. Esta seria uma bela cena para se vê em câmera lenta. E, como se a força gravitacional me puxasse além do normal, vejo-me caindo de joelhos. Com as mãos na cabeça e rosto encharcado, começo a gritar desesperadamente. Não me importo se o barulho vai incomodar o vizinho ao lado, quero que ele se f*. Esse é o meu momento, momento de chorar, de gritar, de pôr toda essa angústia pra fora.

Respiração ofegante. Olhar no infinito. O ambiente é um quarto de hospital:

– Mãe, eu me sinto tão… tão mal por vê-la nesse estado, tomando todos esses remédios…

– O que a gente não faz para que a vida nos conceda mais uma chance, filha? Enquanto muitos ingerem remédios para morrer, eu sou uma das muitas pessoas que precisam tomá-los para viver. Pense nisso. Uma mesma ação pode ter fins totalmente distintos.

Logo depois, sua mãe adormeceu. E alí estava ela, observando-a e refletindo àquelas palavras.

De volta novamente à realidade. Levanto-me devagar. Enxugo o rosto com a manga da camisa. E mais uma vez penso comigo: “Não foi dessa vez Talita. Talvez algum dia, quem sabe”..pexels-photo-2980323

Hiato

sobre o seu abraço buraco que ao me aquecer me afunda.
a luz que entra pelas gretas de um quarto escuro, mas que não o faz deixar de ser um quarto escuro.

(ainda assim essa luz acalma)

sobre você ser buraco íngreme fundo que eu me afundo sem me arranhar ou me prender nas paredes.
afundo como se esse fosse o meu destino,
e esse é o desatino, ai que o nó desata e enforca sem dó.
seu abraço buraco fundo deveria ser buraco cheio.
você deveria ser conforto,
cama,
carinho.
mas é buraco fundo que eu me afundo na solidão.
talvez essa seja a única forma que você sabe ser.
e eu, eu tenho que me esforçar para não me tornar o abraço buraco fundo de alguém.

A queda

Após me tornar poderoso em guerras e estabelecer meu reinado, meu coração se envaideceu do mais profundo e vil orgulho. Os filhos do meu povo entoavam cânticos em meu nome, as multidões de meus inimigos temiam e assombravam-se de medo perante a minha presença. E do brilho do ouro meu espírito se embebedou e minha alma se encantou pela própria imagem refletida na lâmina d’água. Tornei-me um rei tirano e impiedoso que não se compadecia por nenhuma alma vivente. E cada dia mais uma sombra crescia dentro de mim, e a escuridão se despertava. Foi dado asas a serpente. E ela acordou de seu sono e destituiu de mim o meu reinado. O rei que antes era orgulhoso, hoje banido. Continue lendo “A queda”

Entropia

Vinha andando na rua com aquela sacola de plástico, tocou o interfone e ela logo atendeu.

— Oi?

— Oi, sou eu

–Tô indo.

E enquanto ela ia, ele deu uma arrumada na roupa, olhou os sapatos e fez cara de quem se arrependeu de estar com eles. Ela abriu o portão “entra”. Ele deu um passo adentro e ficou a olhando-a até que ela fechasse a entrada. Depois ela seguiu na frente com as pernas magricelas. Foi direto a cozinha. Pegou uma xícara e encheu-a de café, ele atordoou-se um pouco pela ausência da fumacinha que tem o café quente. Havia um cheiro de hortelã no ar, e uma garrafa pequena em cima de uma mesinha, ele a tocou discretamente e pôde sentir que estava quente. Ela sabia que ele gostava de chá de hortelã, mas lhe serviu café. Frio. Ele olhava a grande garrafa de onde havia saído o café, enquanto ela abria o armário e pegava uma tigelinha, onde colocou umas 5 rosquinhas de chocolate. Segurou a tigelinha e a xícara, uma em cada mão, e virou-se para ele estática, enquanto ele tentava arrumar jeito com a sacola para pegar as coisas. Quando ele segurou tudo, ela puxou uma cadeira e sentou-se, o encarando com as coisas nas mãos. Ele se desconcertou, fez cara de susto, foi até a mesa, desajeitou-se novamente por causa da sacola, puxou uma cadeira e sentou-se. Ela continuava a olha-lo, ele sorriu para ela sem graça e começou a comer a comer as rosquinhas. Continue lendo “Entropia”

DT 32:2

Esse negócio de seguir em frente é uma das coisas mais complicadas que a humanidade pode inventar. Ao sentar na minha varanda e esperar a chuva passar, ao abrir meu pacote de cigarros e notar que está vazio, ao amassar a lata de cerveja, ao ler o novo e-mail com a fatura do cartão, sinto na pele o tremendo esforço que a vida anda fazendo para me puxar, novamente, ao plano da realidade. Só que todo esforço parece ser pouco, todo problema é mínimo. Sinto-me suspenso, acima das regras do cotidiano, engatinhando numa corda bamba entre o real e o imaginário. Tendo de um lado suas palavras, promessas, atos e memórias e do outro o fato de que você não voltará mais. A cerveja eu pego na geladeira, a fatura eu resolvo no banco, o cigarro eu compro na esquina. Mas e você? Não há resolução para você, para nós dois. Não existe dinheiro que compre ou atitude que repare. O que dá pra fazer é sentar e esperar, tal como, agora, eu espero o passar da chuva. Equilibrando-me nessa corda fina de embaraços, assistindo os meus dias transcorrem e derreterem.

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Missiva

xxxxx, xx

Minha vida anda desajustada. Sabe aqueles relógios que você ajusta a hora num instante e no outro ele já tá marcando a hora errada de novo? É um pouco assim que me sinto. Nenhum dos meus relógios quebrados teve conserto definitivo. Sempre os joguei fora. Há pessoas que colecionam relógios quebrados. Pergunto-me por qual motivo (?). Não servem mais. Só ocupam espaço. Também já vi pessoas que dão mais atenção para os relógios quebrados do que para aquele que carregam no pulso, e lhe é de alguma serventia. Você percebe o que quero dizer? Relógios quebrados também precisam de cuidados. Relógios desajustados também são dignos de cuidado. Faz sentido pra você?

Precariedades

Faz frio no Rio,

Faço sinal para o ônibus, entro e atravesso a roleta. Tento escolher um bom lugar, mas infelizmente não há muitos. Fico com o melhor local possível e nele me sento, bem ao lado de uma garota.

Eu não a conheço. No entanto, por alguma razão, ela guarda o celular na bolsa assim que me vê. A julgar pela gravata engraçada, pela blusa social, meião e saia curta, ela é uma estudante de licenciatura. Eu me ajeito no banco, o ônibus segue.

Dois minutos depois, algo começa. Algo latente. Uma vontade, uma indiscrição, um desejo. Da parte dela, claro, não da minha. Eu sigo transpirando a minha indiferença notória.
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azul ausente

e ouviria você recitar o poema por 10 ou 12 vezes. acho que te pediria para recitar durante a  noite inteira. a sua voz, você, o poema. já é noite. te peço: recita o poema. daqui eu te escuto.  diria-te que tua voz soa como barulho de mar que acalma, mas soaria clichê. digo-te apenas que te escuto, sabes bem que te escuto. a noite até ficou mais bela. posso ver e ouvir você recitar o poema. você. a noite. o poema. a voz. você. o poema. a voz. você. te peço: recita o poema.

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